quinta-feira, 3 de julho de 2014

Short Novel - Heróis de Areia ~ Capítulo 12: Fuga

Capítulo 12: FUGA


Retalhos de diversos tamanhos estouraram para cima ,num grande leque de couro e trapo. O casaco de Quatrocordas estava mesmo precisando se aposentar, mas não havia necessidade de ter esse trágico final. Belthias sorria e colocava a língua para fora da boca, deliciando-se no próprio deboche que esboçava escancaradamente. Por dentro, vibrava de felicidade por conseguir, sem muito esforço, um bom partido: um Hunter forte, alto e intimidador. 
Não que precisasse dele sempre, mesmo porque toda Lullaby se orgulha de ser uma: confiam em seus poderes e em suas ilusões, considerando-as o bastante para a raça rival. Mas ter um idiota, sempre disponível ao seu bel prazer, fazendo o que ela bem decidisse,  era o que realmente a divertia. E esse pensamento era o da maioria das Lullabys.
O momento em que Quatrocordas foi atingido, fôra contemplado ao máximo pela criatura:  ele flexionara as pernas, de modo que parasse longe, sendo arrastado para trás. Mais ou menos uns doze metros, na posição de montaria. Seus braços instintivamente ergueram-se para frente, e mãos e dedos contorceram-se pelo impacto. Talvez também pela dor. Sua cabeça havia se curvado para baixo; deu para notar, antes de abaixar, que o ele havia feito uma careta. Acertar um bêbado, à queima-roupa, foi um ato traiçoeiro e injusto. Entretanto, as Lullabys não ligam muito pra isso também...
Distanciando aos metros e deixando de forma funda a marca dos seus pés no chão empoeirando, Cordas apoia a mão esquerda no peito, onde foi atingido. Ainda sua postura é cabisbaixa e usa a mão direita no chão como apoio; por fim seu joelho direito encosta na superfície do deserto. A Lullaby se adianta:

—Eu vou me retirar. Detesto assistir o processo que vocês passam. Quebra totalmente o clima e eu não tenho estômago para isso. Logo mais você me achará mesmo, pois estará sob meu controle. Então, até breve!

Ela vira de costas para ele de um jeito um pouco gracioso e abaixa a arma, começando a caminhar, distanciando-se. O Hunter se concentra, antes de pronunciar tal questão:

—Onde pensa que vai?

A Lullaby continua andando, apenas virando o rosto para responde-lo:

— que Hunter mal educado! Eu vou lhe esperar em meus domínios para me servir, oras!

Belthias continua andando e diz, ainda de forma um pouco compreensiva em relação ao estado do homem:

—Não tenha pressa em levantar desse lugar. Com o efeito da fumaça, entendo que até um Hunter com a sua resistência não conseguiria manter o equilíbrio.

No mesmo instante que ela disse isso, atrás dela a silhueta de Quatrocordas levantara. Parecia emanar uma áurea desconhecida, porém ofensiva em sua essência. Dava medo. A Lullaby, à princípio, se espantou, sem olhar para trás, sentindo apenas a energia proveniente do homem. Mas depois ela deixou escapar pelo canto da boca um sorrisinho malicioso. Virou-se, subestimando-lhe:

—Muito bem! Mas o que adianta levantar com toda essa pose, se você já está dominado? Apenas aceite o fato.

De súbito, a criatura parou de falar asneiras e resolveu perceber algo no silencio de Cordas. Era um convite para calar a boca e observar o estado do rival.
Quatrocordas estava de pé, levemente sob o efeito da fumaça. Seu casaco, do lado do coração, estava em frangalhos, mas não havia sangue ou quaisquer ferimentos sério ou profundo. No lugar atingido, embaixo do que sobrou da tramado pano, um estranho brilho metálico escondia-se.

— Você... não foi atingido? Mas... Mas eu podia jurar que eu te atingi! Não tinha como eu errar. Então, como...?

A Lullaby estava confusa com o que via. O homem fez o favor de esclarecer a ignorância que pairava:

— A minha sorte foi que, excepcionalmente hoje, troquei de lugar a minha arma favorita e coloquei  encaixada no suporte da frente de dentro do meu casaco.

—...

Belthias ficou extremamente irritada e sem palavras. Não era uma Lullaby de Rank S, nem Rank A, com poderes independentes de sua arma, como criaturas desses respectivos níveis. Ela ainda precisava aprimorar sua mira e o efeito de seu tiro.
 Se nunca foi comprovada a existência de magias neste mundo, um detalhe importante que deixam os Hunters sob constante desvantagem é o poder que essas criaturas podem ter. Desenvolvem a partir de suas misteriosas origens, e os Homens jamais ousaram usar qualquer palavra que remeta a "magia" para tentar explicar os poderes das Lullabys. É desconhecido se os Hunter temem que isso possa ser verdade e existente, mudando o paradigma implantado na realidade deles...
Belthias poderia então não ter poderes, mas usava sua inteligencia e conhecimentos ao seu favor. Isso não deixava de ser um poder, porém de forma simples. Por isso, usava e abusava de substâncias químicas em seus tiros para paralisar seus alvos e assim, desferir sem problemas, seu último tiro. Era a forma que encontrou para se igualar as Lullabys de classe A e S.

Cordas continua:

— Eu poderia simplesmente ficar quieto aqui, imóvel e esperar você se afastar ,e  esperar-me onde eu jamais chegaria; você perceberia tarde demais a sua falha. Mas, pela sua teimosia, acho que lhe devo ensinar BONS MODOS!

Do outro lado do que restou do casaco, Quatrocordas tira do segundo suporte sua maça-estrela Morning Star. A Lullaby encara o brilho metálico protegendo o coração de Cordas e depois o fita no rosto, esperando alguma reação ou resposta do Hunter.

— Não, não vou tira-lo aqui do meu peito, se esta é a sua pergunta. O Simmons me protegerá de qualquer ataque seu almejando essa direção. A Morning Star é mais do que suficiente para você.

— Maldito! Te dei a chance de viver feliz ao meu lado. Sair dessa vida medíocre e solitária que é de um Hunter. Pois bem — E dá um novo gatilho seco, levantando a Shotgun — Vou te deixar inválido e depois acabarei com a sua alma. Ficará vagando, como puder, no meio de toda essa poeira, e nem terá consciência disso!

Ela fecha um dos olhos, mira na cabeça do caçador e atira com uma mão só. Seu corpo ,tomado pela raiva, fez um movimento desengonçado com a ousadia de ter atirado com um braço só a Shotgun. Mas nem por isso errou a direção ou ficou numa posição desvantajosa; tratou de manter a postura para novos ataques e defesas, não fosse por um detalhe.Quase que no mesmo segundo que foi disparado o projétil, Cordas já havia previsto esse movimento da Lullaby, e esmagou o chão abaixo do seus pés com a sua força descomunal, destruindo-o num raio de cinquenta metros, fazendo a criatura perder o equilíbrio e subindo grandes pilares de rochas, protegendo-o do tiro e levantando outros na direção dela.
Os conhecidos do Hunter, incluindo alguns membros do DeepSea, quando avistavam erosões ou territórios acidentados isolados do Grande Deserto, diziam que Quatrocordas havia tido uma luta épica naquele local. Apesar de se tratar de uma brincadeira entre amigos, isso fazia todo o sentido no que diz respeito aos locais onde Cordas lutava.

Não sobrava praticamente nada.

A Lullaby foi atingida pelos pilares que subira e, com isso, foi arremessada para trás como papel pelo ar. Para completar, Cordas não mediu esforços: avançou na direção dos pilares  que já haviam acertado a criatura e despedaçou-os com a maça-estrela, fazendo voar grandes pedaços de rochas, acertando-a de tabela. Ela rolou algumas vezes no chão e ali ficou. Estava viva, mas muito debilitada. Sua Shotgun caiu um tanto afastada de seu alcance. Cordas soltou suas palavras:

—  O seu erro foi ter me deixado com essa terrível sensação — disse Cordas, aproximando-se da Lullaby — Eu costumava treinar todo dia neste estado.

Com a mão no ventre, a criatura tentou levantar mas foi em vão: o Hunter ja estava de pé, ao seu lado. Ajoelhou, e pegou-a passando seu braço pela cintura da Lullaby e levantou o tronco do chão. Sentada, começou a previr o que viria:

— O que vai fazer comigo, Hunter desgraçado?

A expressão do homem era aparentemente severa. Mas era mais que isso. Era calma, determinada e irreversível.

— Que pergunta mais óbvia... Vou pegar seu Egocon...

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Cordas estava indo embora. Belthias se mantinha, ainda que de forma quase sobrenatural, resistente. Talvez o Hunter tivesse pego apenas o suficiente da energia, fazendo com que ela alcançasse a Shotgun e teimasse a lutar.

— Você será meu, entendeu? Não fuja, volte aqui!

Ela faz uma nova mira. Ele torna a virar-se pra ela e diz:

— Para não aparentar que estou fugindo, eu deveria silencia-la ou você me atingir fatalmente. Mas não dou a mínima para o que você pensa. Se ainda tem forças para se levantar, aconselho então a se dirigir para onde você estava indo antes de perder. Quem sabe eu ainda não lhe faça uma visita?

Em seguida, pulou consideravelmente alto e acertou sua maça-estrela no chão, levantando uma enorme parede de rocha, do próprio chão elevado. Uma barreira de uns quarenta metros de altura e comprimento considerável separava a Lullaby do Hunter.

A criatura foi coerente apenas uma vez e decidiu não mover um músculo para ir atrás do homem. E ela tinha razão: se encontrava quase rastejando-se, com as pernas trêmulas, esgotada. Se ultrapassasse a muralha de rochas, não encontraria nenhum vestígio de Cordas. Seus passos pesados não deixariam marcas no deserto. Não estaria mais ali: estaria longe, muito longe.

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O Hunter tomou uma direção alternativa. Isso levou mais tempo; foram-se dias. Talvez semanas. à esta altura ele perdera a noção de tempo e repetia a cena na cabeça da qual ele almejava quase como um presente divino: estar em pé na sala do Deep Sea. Ele precisou se esconder e averiguar se ainda estava sendo seguido por Belthias e tomou todo o cuidado para não ter o azar de trombar grupos de Lullabys perambulando o deserto. Cordas possuía uma concepção diferente de Gipsy e mais próxima de Vanitas, de modo que o fez coletar uma quantidade não suficiente de Egocon para longas caminhadas. Achara na ocasião que, logo após deixar Belthias para trás, iria o mais rápido possível ao encontro do líder do DeepSea. Mas no meio do caminho foi mudando sua estratégia e isso foi muito bem vindo: conseguiu evitar grandes problemas. Nunca rumava em linha reta, apenas pelas existência de grandes elevações de rochas que podia se esconder, caso precisasse. Quando finalmente achou conveniente arriscar a sair  debaixo de uma gigantesca elevação de rochas, poe-se a andar rumo a uma área com aparições de Lizgarts.

Esses grandes lagartos do deserto, quase do mesmo tamanho que um Avestruz, servia de montaria para os Hunters. Isso facilitaria a vida dos homens, e seria seu principal meio de locomoção rápida em longas distâncias, se não houvesse dois pequenos detalhes a respeito desses animais: o primeiro é que eles exalam um cheiro que os homens não sentem, apenas as Lullabys. O segundo detalhe é que Lizgart é o alimento favorito delas.
São dóceis e fáceis de montar, apesar da aparência mesclada de um dinossauro bípede. Basta ter um punhado do alimento favorito deles, que quase tudo está resolvido. Entretanto, escolher domá-los e monta-los não é sempre a melhor escolha a se fazer.
Quatrocordas decidira, após caçar alguns pequenos lagartos e cobras do deserto para comer, na noite anterior, que arriscaria rumar em direção a uma área próxima, onde havia pegadas de Lizgarts e partiria em disparada dali no mesmo instante que domasse um. Ele sentia que precisava arriscar e ir contra toda a pressa que sempre ignorou na vida inteira.
Dali, se conseguisse uma montaria, este caminho com a velocidade do bicho, o levaria rapidamente até a base dos Hunters.

 Começou o dia e Cordas  poe-se a caminhar durante horas, não tão extensas, até sentir um peso um pouco maior que a sua mochila. "Devo estar cansado", pensou. Mas continuou caminhando. Mais alguns minutos e, estes sim, foram compridos.

Não era um peso que não pudesse ignorar — Cordas era um Hunter fortíssimo, nada choramingão e o mais temido do grupo liderado por Gipsy — mas algo estava errado. Seria ainda os efeitos dos tiros de Belthias? Era possível, já que ele não sabia quanto tempo o efeito diabólico durava.

Resolveu parar. Fez menção para tal quando, uma voz que ele conhecia muito bem, disse:

—Imaginei que aguentaria levar-me mais longe. Desistiu, ou simplesmente cansou de me carregar?

Nas costas dele, deitada sobre sua mochila, de pernas cruzadas e para cima, olhando as unhas de uma mão, jazia ali, tranquilamente...aparentemente à toa, o terror.
Quando ele virou só a face para ver, um calafrio intenso e profundo dominou não só o corpo dele, como também seu espírito inabalável. Sua expressão se perdeu na mais aterrorizante perdição que um Hunter pode chegar. A ideia do efeito dos tiros de Belthias dissipou na mesma hora, com o tranco frio da realidade. Cordas se esforçou para perguntar algo sem sentido:

— O...q-que voc- você faz...aqui??





















quinta-feira, 26 de junho de 2014

Short Novel - Heróis de Areia ~ Capítulo 11: Amizade

Capítulo 11: AMIZADE


Com intervalos quebrados, uma brisa forte parece crescer entre as vielas das casas e despejar-se sobre os dois  Hunters com uma força maior do que quando surgiu na entrada da cidade. Banha-os como ondas invisíveis, não sem antes passar por janelas quebradas testando se ainda fecham e abrem com sua passagem. O balançar de algumas vidraças, não muito comum neste mundo, compõe junto com o vento uma estranha melodia ao vibrarem, quase soltas, em suas respectivas janelas.
Bem acima da cabeça dos Hunters, o efeito que este vento faz nas nuvens é muito mais agressivo: elas são arrastadas com a vontade da natureza, implacável no deserto. Neste momento, são poucos os espaços que sobram no céu para que o Sol permaneça escaldante, como sempre foi.
Entre as nuvens e as vielas com suas janelas, neste  meio encontram-se os grãos de terra e areia, sendo levados e alterados constantemente. Os grãos não possuem raízes. E, tudo que não possui raízes, não morre com facilidade. É persistente, e dá a impressão de estar em todos os lugares.
Greenglasses coloca em seu coldre sua arma de fogo simples. Sabe que disputar tiros com Gipsy seria inútil. Ele então tira do bolso um disco pequeno de metal. Uma espécie de item que se encontra aos montes em ferro-velho. À primeira vista, tem a aparência de uma peça perdida desse lugar, pertencendo a qualquer coisa que tenha tido esse destino esquecido.
Ele joga para frente, e para baixo, girando o pulso, mantendo-o perto do corpo. O pequeno disco de metal cai e flutua a poucos centímetros do chão, sem toca-lo. Só então percebe-se que Glasses está com sua mão direita suspensa, com o dedo indicador apontado para frente. Um pequeno anel colorido e semi-transparente de energia Egocon liga como um fio até o interior do disco de metal. Gipsy particularmente adora essa arma do amigo. Acha-a muito peculiar: é um ioiô.
Glasses posiciona-se para lutar. O Hunter da Lúdica  permanece ainda com sua Rudder  apontada para a cabeça do amigo dominado. O Sol cismou, naquele momento aparecer entre as velozes nuvens que migravam para uma certa direção. Os homens ficaram encarando-se. Tão imóveis que pareciam duas estátuas recém-feitas em uma cidade devastada.
As duas mechas lisas, que compõe a franja, caem à frente do rosto de Greenglasses, e é o que balança com facilidade na brisa que está de passagem. Seu pequeno rabo de cavalo mantém-se firme, estremecendo apenas nas pontas.
Aos poucos, o brilho do Astro-Rei lambe telhados, pilares de madeira e vem descendo lentamente, dando sua cara nos interiores dos barracos sem telhados, revelando como um passe de mágica o pó e os ácaros contidos naquele cenário solitário,antes invisível.
A luz chega comendo as sombras, passando por Gipsy  primeiro, e faz com que a ponta do cano de sua arma brilhe feito prata reluzente, podendo ser avistada de muito longe. Essa mesma luz continua avançando, na direção dos pés do oponente, e não demora para alcançar seu disco que gira veloz e suspenso na altura de suas canelas. Ela passa, subindo em sua figura e, por fim, pelo rosto ensanguentado e seus óculos trincados, ocasionando também um brilho também na sua parte de metal.
A claridade chega no outro lado da praça, e em seguida passa uma outra nuvem, enorme, que não perde tempo em traze-la consigo uma sombra de quem almeja tampar novamente o Sol. Faz exatamente o mesmo caminho que a luz, agora escurecendo o cenário e apagando a estrela que brilhava na Rudder de Gipsy e no Galaxy Wheel de Glasses.
Quando o vento passou por eles e com ele, a nuvem que projetara a sombra até o outro lado da praça, houve os dois segundos mais lentos do mundo. Deu-se a sensação que o tempo parou. A brisa que passara subitamente sessou e parecia não se ouvir nada, nem a respiração dos homens.
Gipsy deu o primeiro tiro, que foi facilmente desviado por Glasses; este logo em seguida arremessa seu ioiô com intensidade e violência. Fazendo esse movimento, seu Galaxy Wheel abre uma grande fenda no chão, rodando de forma mortal na direção do líder da DeepSea...

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Distante dali, duas figuras acabam de tocar o chão novamente após um grande salto: uma das figuras atacava. A outra apenas evitava os ataques.
Belthias está com uma expressão séria, ligeiramente carregada de desdém. Está abraçada em sua Shotgun com o cano duplo virado pra cima, e deles saem fumaça. Quatrocordas sente estar perdendo um precioso tempo, mas tenta não transparecer a pressa que tem de rever os amigos e revelar a verdade.

— Nada mal!... — desdenha  a Lullaby.

— Vamos parar com isso? Você sabe que seus tiros não vão passar de falhas no meu casaco — Argumenta Cordas, apontando para um dos vários tiros de raspão que pegara na sua indumentária já gasta de aventuras e batalhas.

Belthias não muda muito sua expressão. Apenas levanta o cano da arma para cima e engatilha com um tranco seco:

— De raspão, é? Veja bem o seu casaco... ele diz por si só! Logo mais farei um rombo bem onde eu quero e então ele me dirá que você foi atingido fatalmente no coração!

Quatrocordas suspira, impaciente. Seu arfar pesado afasta as pequenas fumaças que saem dos tiros que passaram raspando em seu casaco. Achou que devia  argumentar algumas coisas:

— Observe, criatura! A arma que você é similar a uma Shotgun. Devido a natureza dessa arma, tiros à distância se espalham, facilitando seu objetivo em atingir o alvo. Se nem assim você consegue me acertar de verdade, não acha que já está na hora de tomar seu rumo e procurar  um idiota que adora tomar tiros de uma Lullaby do seu nível?

Belthias desvia o olhar. Por um momento, parece se aborrecer com o que o Hunter disse. Sem encara-lo, e ficando com uma expressão ainda mais fria, pergunta:

— Você está dizendo que, para eu te acertar, só com um tiro à queima-roupa, certo?

— Sim, mas isso será impossível. Apesar de eu ter todo esse tamanho, sou melhor que sua mira e mais rápido que suas balas. Você nunca me acertará com esse nível.

— Ah, vou sim!

Neste momento, a fumaça que sai de cada tiro aparentemente de raspão no casaco de Cordas parece ficar mais denso e, sem perceber, o Hunter inala-a. Sente um mal-estar e suas pernas vacilam em sustentar seu peso. Sua visão começa a ficar distorcida e ele pisca várias vezes para tentar melhora-la. Quatrocordas não compreende o que acontece e Belthias faz questão de explicar:

— Eu sei muito bem sobre o meu nível e reconheço que meus tiros e minha mira não são eficientes. Então, por onde eles passam, ocorre uma reação química, onde libera um gás que dá a sensação de uma...

— ...Forte...embriaguez! — Cordas completa, com dificuldade de falar.

Sua expressão é de dor e incômodo, e o deserto, os grãos e Belthias parecem rodas na sua frente.

— Demorou para fazer efeito...Acho que consegui resolver o problema da sua locomoção, não é, Cordas?— E, se movendo velozmente para frente dele, ela abaixa a arma e encosta no seu peito — Basta agora dar o tiro da vitória! Vou adorar ter um escravo grande e forte como você!

O Hunter sequer conseguiu acompanhar a rapidez do movimento dela . Abaixou os olhos e  olhou para a arma apontada no seu coração:

— Mas que drog...

O tiro ecoou por uma longa distância nesse deserto sem fim...


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Uma fileira de barracos de diversos tamanhos, são destruídos em questão de segundos de forma violenta e seguida, e Gipsy corre por cima dos telhado, para não ser pego pela explosões. O ioiô de Greenglasses choca contra os barracos e os despedaça feito maquete em miniatura. Seu Galaxy Wheel está destruindo tudo que encontra no caminho e o seu tamanho está enorme: suas engrenagens e dispositivos inteligentemente projetados o faz crescer de forma assustadora. E, neste exato momento, está do tamanho de um cômodo grande. Uma verdadeira roda mortífera, com as engrenagens complexas devorando tudo com seus dentes!
Naquela rua, a última casa é despedaçada feito papel e, por pouco, Gipsy não é jogado longe com a destruição. Pulou, alcançando uns quinze metros, virando no ar e disparando contra Glasses, que puxara seu ioiô de volta, agora pequeno  na sua mão, pronto para um novo arremesso. O Galaxy Wheel cresce quando chega perto do alvo.
Greenglasses desvia de um tiro, dois, três, quatro... o próximo ele para com a palma da mão esquerda:

— Gipsy, pára de brincar comigo! Você sabe que o tipo de arma que você carrega não surte efeito em Hunters! Por um acaso está querendo ganhar tempo? Não temos esse luxo!

Gipsy reflete consigo mesmo:

— O efeito do tiro da Lullaby está ainda de forma parcial nele. Mudou o efeito da arma, mas ele ainda está imune aos tiros da Rudder...

— Não acredito, Gipsy! Você está esperando o efeito me tomar por completo pra você me alvejar? Isso... isso é injusto! Não está cumprindo com o que me prometeu! SEU TRAIDOR!

Gipsy chega do salto e, no chão, afasta os pés instintivamente, procurando base para se defender do ataque veloz do ioiô. Seu alcance parece quase sem limites. E seu tamanho cresce à medida que chega perto do alvo escolhido. Está maior devido a energia de devoção à Lullaby que o atingiu.
O movimento que Gipsy precisou fazer, segundo ele, seria difícil de explicar. Sem pensar, sacou a Lúdica da bainha, não totalmente, para tentar parar o disco. Foi o simples e natural instinto de sobrevivência.
As faíscas não paravam de sair do atrito das duas armas que insistiam ocupar o mesmo lugar.

— Isso! Isso! Saque sua espada! Eu te prometi uma boa luta. Você deveria fazer o mesmo!

Tsc! — Resmunga Gipsy —Você deveria ser mais grato! Como também prometi, estou te oferecendo uma boa luta. Mas será apenas uma ÓTIMA batalha que me fará tirar essa belezura da bainha!

Negou-se à tira-la totalmente, mas inclinou o corpo pra frente afim de fazer recuar o ioiô. Este volta prontamente de forma diminuta para a mão de seu dono, muito irritado com o que acabara de ouvir. Cessou a chuva de faíscas.

— Sempre achei sua arma sensacional, mas agora...Ela está Fabulosa! Seria muita pretensão minha ou eu posso afirmar que a arma de um Hunter se torna mágica quando se encontra à favor de uma Lullaby?

— ... Não sei! — Responde Greenglasses impaciente.

— Pena que todo esse poder e efeito não vem originalmente de você, né? Me diz uma coisa: já está pensando muito nela ou o quanto ela está em seus pensamentos?

— Cala a boca, Gipsy! Estamos perdendo tempo aqui! Estou me segurando para não te trucidar e espalhar suas vísceras pelo deserto!

— Nossa, que mau-humor! Olha, não quis te ofender! Sei que a cada minuto ela tem mais e mais controle sobre você. E tu és apenas uma pobre vítima...

— Então cale essa maldita boca, e vamos lutar!

— Como está o seu coração, Glasses? Bate mais forte? Mais rápido, talv...

Uma fenda é aberta no chão levantando uma enorme poeira atrás da roda mortífera que se dirige à Gipsy. Este perde o equilíbrio; estava se concentrando em deixar o amigo furioso. Conseguiu de forma bem mais sucedida do que se preparar para o ataque certo de quem já nem está mais raciocinando.
Conseguiu se jogar para o lado, escapando por pouco do Galaxy Wheel. Deitado no chão, tomado por um certo desespero, sacou novamente a Rudder e atirou umas cinco ou sete vezes no fio de energia que puxava novamente o ioiô para o seu usuário. Atirou, mas nada aconteceu. O Iludido puxa sua arma para sua mão e Gipsy se rasteja com os cotovelos na areia, porém, sem dar as costas para Greenglasses. Suas pernas estão esticadas no chão e o seu tronco  levantado pela ponta dos cotovelos. Agora o Hunter estava a mercê de qualquer ataque do Iludido. Era uma desvantagem crítica!

— É, Gipsy...Me subestimou e agora está aí, jogado ao chão. Por que você não me ouviu, seu desgraçado? Por que chegou tão tarde?

Greenglasses começa a chorar. O sangue de seus ferimentos já está seco, dando-lhe uma aparência ainda mais de um morto-vivo.

— Vou te matar e nem você, nem ninguém poderá  fazer algo a respeito. Me...desculpe...

Em prantos, ele arremessa o ioiô num grito de negação. Lançou-o com tamanho ódio que a fenda que abrira no chão foi maior e mais funda. Os trinta e tantos metros de distância de um Hunter para o outro não era o suficiente para Gipsy ter tempo de levantar.
O Hunter da espada colocou a mão no punho desta e esperou dentro dos milissegundos que a sorte oferecia. Era pegar ou largar. Ele esperou. O fio de energia do ioiô estourou, pelos tiros de outrora da Rudder. A arma de Glasses perdeu o controle, rodando bem mais rápido, porém cambaleante, ainda em linha reta. Gipsy sorriu, sacou a espada, completa e rapidamente e jogou na sua frente, entre as suas pernas, encravada no chão.
Ela parou o ioiô, fazendo uma gigantesca chuva de faísca e um som de serra e metal duelando ferozmente. Enquanto o Iludido tentava compreender o que havia acontecido, o Hunter da espada estranha levantou e saiu da área de perigo, correndo na direção de Glasses. A Lúdica rebateu o Ioiô para cima e, ao cair, afundou uma casa, pelo tamanho que estava. Fez um grande barulho porém diminuiu e ali ficou: trincado, imóvel e inutilizado.
Correndo, Gipsy joga o punho fechado pra trás e diz:

— Finalmente ganhei tempo para que sua energia ficasse misturada com a da Lullaby. Agora parecem melhores meus tiros pra você, maldito?

O soco que Glasses tomou no rosto chacoalhou seu cérebro, fazendo o deserto girar. Antes que pudesse revidar, veio outro soco, agora na boca do estômago, forçando-o ajoelhar. Greenglasses cospe mais sangue e quando recupera o fôlego, fita Gipsy de pé, olhando severamente para ele.
O Hunter Iludido levanta cambaleante e dá de cara com a Rudder apontada na sua cabeça.

—  Ora, ora...Veja: parece que voltamos à cena inicial da nossa luta. —  Gipsy diz ofegante e sarcástico.

—  Grr...Vamos, mate-me! Acaba logo com essa merda!

—  É ruim, hein? Não vou te dar esse gostinho. Mas antes, quero que saiba que estou extremamente desapontado contigo. Achei que tivesse evoluído. Te passei um ou dois truques, te mostrei como se portar diante desses perigos pra eu receber esse presente grego de você. Francamente, Glasses...

Gipsy joga longe a Rudder e vai para cima de Greenglasses, armando mais um golpe. Mas é desta vez que o Iludido freia o ataque jogando areia no rosto do amigo e derrubando-o no chão. Por cima, alterna entre soco direito e soco esquerdo na cara de Gipsy e o sangue começa a vazar de diferentes pontos.

—  Refleti muito depois daquela ligação, Gipsy! O mundo está cada vez mais solitário e resolvi deixarpor algum tempo a ressonância de lado e ouvir um pouco sobre o que meu coração me aconselhava fazer!

Gipsy estava ficando atordoado, mas ouvira bem o que o amigo disse. Conseguiu trocar de lugar com o amigo e descontou da mesma forma no rosto dele:

— Do...que...você está falando?

Greenglasses consegue tirar o Hunter de cima e limpa o sangue que escorre do nariz. Ele continua o raciocínio:

— Fui atrás de você num dia em que não havia ninguém no Q.G. Aquele telefone velho tocou e foi me oferecido uma espécie de trabalho. Não foi me dado valor pelo serviço, porém detalhes de onde essa Lullaby estava. Resolvi aceitar e, no caminho, fui me perguntando algumas coisas. Aliás, nesse exato momento, me pergunto sobre isso...

— Tarde demais para se arrepender, Glasses!

O soco veio do Iludido tão forte etão rápido que a cabeça de Gipsy sentiu a mesma sensação terrível quando apanhou da raiz da Garden de Ward. Ouviu uma confusão de sons que a dor não deixou codificar direito, mas teve a impressão de ouvir o amigo dizer: "mas eu não me arrependo."
Greenglasses levantou o amigo do chão e mais golpes foram dados. Gipsy se defendia como podia, e deu-lhe uma cabeçada que pegou o dono do ioiô desprevenido. Sua cabeça foi pra trás, e Gipsy aproveitou essa quebra de ataques sucessivos de Glasses pra descontar da mesma forma. Enquanto esmurra o amigo, chora.
Ao fim de dois minutos, Greenglasses cai desfalecido e Gipsy, em prantos e desfigurado.

Os movimentos violentos cessaram.
A luta havia acabado.
Glasses não se mexia mais...

Não urrava, não blasfemava. Não destruía mais casas. Não forçava uma batalha.

Agora, ele dormia...

O Hunter caminha, mancado até sua arma e depois até a espada e as guarda. Em seguida, se dirige até a casa esmagada pelo Galaxy Wheel e apanha o ioiô. Ele retorna e pega o amigo no colo. Ambos ensanguentados, ele segue de volta para o Q.G.:

— Vou cuidar de você em nome da nossa amizade. Prometo que acharei um jeito de te trazer de volta. Por enquanto, durma bem e tenha ótimos sonhos...

E, ao caminhar, ainda murmura:

— Obrigado, Glasses. Isso, com certeza, foi uma ótima luta...








quinta-feira, 19 de junho de 2014

Active Time Event- Algumas Considerações...

Bom dia (tarde ou noite) para todos! "Exercitando" seria a palavra mais sutil que descreve o que faço aqui, hoje, aproveitando que é Quinta-feira, dia de publicações da Short Novel neste blog.
Como postado alguns dias atrás, Heróis de Areia Voltará na próxima semana, toda Quinta-feira, como era antes do Advento da faculdade (falando assim, até parece que tenho raiva dela. Não, embora detesto ser interrompido em criações para ficar reproduzindo textos já existentes e estudos um pouco ultrapassados).
Falando então da Short Novel, hoje venho dizer um pouco sobre o porque dos capítulos anteriores estarem cada um em uma língua e como serão os demais daqui pra frente.

Quando tive a ideia do enredo, a alguns bons meses, imaginei que o Deserto deste lugar pegava o mundo todo. Não consegui imaginar um oceano dividindo essa estranha terra árida vai-saber-porque (embora não tiro a possibilidade d´ele existir nela). Mas, o ponto que eu quero chegar é que, para dissolver  mais a ideia do leitor(a) que esta narração poderia ter acontecido em qualquer lugar do nosso planeta, nestas condições apocalípticas, eu decidi que em cada capítulo teria seu título em línguas diferentes.
A ideia caiu como uma aceitação plausível global, e o efeito foi melhor que o esperado.

Caso você, leitor(a), não teve tempo ou vontade de saber o nome dos capítulos da primeira temporada, vai aí de "bandeja", a relação:

Prólogo: Rodeado (inglês)
Capítulo 1: Viagem (latim)
Capítulo 2: Destino (italiano)
Capítulo 3: Ressonância (francês)
Capítulo 4: Dialogo (grego)
Capítulo 5: Mãe / Filho (tupi-guarani)
Capítulo 6: Vasta Brisa (alemão)
Capítulo 7: Isolamento (russo)
Capítulo 8: Mentiras ( persa)
Capítulo 9: Ruptura (árabe)
Capítulo 10: Atingido! (japonês)

Quanto aos capítulos da nova temporada, após explicar esta ideia, não vejo mais o por que de continuar com essa ideia repetida. Seguirá, daqui pra frente, alternando bem pouco entre Inglês/ Português e outras línguas, sempre que for pertinente.

Ah, sim. Quem me conhece perguntou: "Mas e o desenho destes personagens, não tem?"

Confesso que andei esboçando algumas coisas, mas ainda não chegaram no ponto de realmente me agradar. Como eu parei de desenhar ( e isso faz anos! ), nesta área as coisas estão beeeeem lentas, porém não esquecidas. Inclusive, existe um grande motivo por não divulga-los agora, apenas no fim da história.

Mas isso eu espero ansiosamente que vocês, leitores(as) descubram por si só, até o fim de Heróis de Areia.

Então, nosso encontro, na próxima quinta, está marcado com os Sobreviventes da Imensidão, com o Eco, com as Lutas e com a Perda.

See ya!

terça-feira, 17 de junho de 2014

De olho na Ampulheta

Olá! Como vão, senhoras e senhores, leitores desse Blog aparentemente esquecido pelo Criador?
Finalmente, após quase seis meses de espera, e muita frustração, venho lhes avisar que, a partir da semana que vem, o primeiro capítulo da segunda temporada de Heróis de Areia estará no ar!

AEEEEEWWWWWWW!!!!! \o/

Mais uma vez, peço desculpas aos leitores ao tempo "ocioso" que ficou este blog. Infelizmente não dava para publicar o material que estava aprontando para continuar a saga, sem poder ter um controle de tempo disponível para manter atualizado este espaço. Trabalhos da faculdade me roubavam o único momento disponível e ainda, as vezes, eu ficava devendo no banco de horas.
Mas agora, as areias da ampulheta estão chegando ao fim, em uma contagem regressiva para o começo da nova temporada!
Muita coisa vai acontecer e cenas dramáticas prometem dar suas caras, ora fazendo com que a trupe do Deep Sea tenha de tomar atitudes drásticas, ora a própria sorte parece abandona-los, nesta guerra que acontece constantemente dentro e fora deles.
A raça das Lullabys guardam muitos truques na manga e...Bem, se eu não me controlar, acabo "Spoilerando" toda a história.
Semana que vem, temos um encontro marcado, no mesmo dia de publicação: Quinta-feira. Caso não possa acompanhar no dia, não se preocupem: estarão aqui  os capítulos sempre que tiverem tempo para tal.
Preparem-se bem para essa longa viagem pelo deserto: muitos dos que conhecemos não voltarão mais!

Até lá!

domingo, 30 de março de 2014

Tempestade de areia passageira

Olá, olá, seguidores do blog Filosofia do Deserto e recentes acompanhantes da short novel Heróis de Areia.
Como havia dito, após um mês de "recesso", voltaria a publicar essa curta novela, assim que eu conseguisse resolver as tarefas da faculdade e outros detalhes.
Porém, é com muito pesar, que AINDA não consegui ajeitar essa parte. Neste semestre está tendo trabalho um atrás do outro, além de praticamente eu trabalhar de domingo a domingo. Quando não, estou fazendo as tarefas de Hércul....digo, da faculdade, com prazos curtos.
Pedagogia costumava ser mais fácil, mas existe uma parte nessa história que me agrada: a tentativa de maximizar o conhecimento do futuro professor, profissão hoje totalmente desmerecida em nossa "cultura".
Mas um desabafo precisa ser exposto aqui: se na Pedagogia nos ensina que é errado fazer do estudo uma ação "bancária" com os alunos, então porque na faculdade estão pedindo 5 ou 6 livros pra ser lidos, toneladas de texto onde sequer sei o que li semana passada e trabalhos que em cinco pessoas ainda dará um trabalhão para fazer? SE é errado depositar tanta informação na cabeça dos alunos, porque no curso que abomina essa prática, essa mesma prática aparece como carro-chefe, condutor do "conhecimento"?

Vai entender...

Posso afirma-los que esse é o real motivo por ainda não ter conseguido postar a nova temporada de Heróis de Areia. Entretanto os primeiros capítulos já estão escritos, precisando passar apenas por uma rigorosa revisão.

Caros leitores. Se ao menos fosse uma única pessoa seguindo essa história, faria essa retratação da mesma forma. Fico contente como tem bastante pessoas acompanhando essa novela. E gostaria de ressaltar que não esqueci da história, assim como também não esqueci de vocês.

Em breve, darei um jeito nisso e conseguirei passar por cima dessa falta de tempo, onde diz que a criatividade salvará nossa sociedade mas nos rouba o tempo para sermos máquinas de leitura mecânica.

E meu blog voltará a ser a forma que tem para cada um, nos momentos de descanso, principalmente. Pois todos nós temos o direito de leituras despretensiosas.

Peço que aguardem essa tempestade de areia num lugar aconchegante, protegido disso tudo.

Dou minha palavra como caminhante experiente desse lugar...

É passageira...

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Short Novel - Heróis de Areia ~ Capítulo 10: 達した!

Capítulo 10: 達した!


O que acontece quando um Hunter é atingido?
O resultado é o mesmo pra quem se admite Hunter ou pra quem reconhece a falta de capacidade para tal. O destino é justo e não faz distinção. E é muito pior que a morte.
A vítima de uma Lullaby se torna inválida nesta sociedade desconhecida em número de população. Inválida e perigosa.
Quando um Hunter é atingido no coração por um projétil de Lullaby, é muito mais eficaz e mortal. Daí, para o cérebro ser infectado é questão de minutos. Porém, quando é atingido na cabeça, o veneno entra mais lentamente no cérebro, e consequentemente causa confusão, tomando de forma devagar o corpo todo.
Tanto no crânio quanto no peito (se assim for a vontade da Lullaby), o caçador perde a maioria dos seus poderes e a quantidade de Egocon absorvido em toda a vida até o momento é extinguido à zero, fazendo com que, aquele corpo que em outrora evoluiu e ficou forte através dessa energia proveniente das criaturas, se atrofie de forma considerável, ficando frágil. 
Independente do lugar atingido, o poder máximo dessas criaturas se concentra na ilusão que seu alvo é vítima. Ela é profunda, sarcasticamente constante e dolorosamente incerta de ser superada. Na maioria das vezes essas ilusões deixam suas vítimas fora da realidade, sendo incapazes de fazerem coisas pela sua sanidade duvidosa. O doente vê coisas que não existem de fato, conversam sozinhos constantemente, se tornam fragilizados feito crianças e agem como uma em períodos indefinidos. Resumidamente, apenas seu corpo está ali, presente. Embora evoque lembranças fragmentadas de quem é ou o quem foi, já não se tem mais controle direto do corpo: seus movimentos não lhe mais pertencem e as batidas do coração da vítima mantém aceleradas até o fim da ilusão, caso essa tenha realmente um final. As sequelas ficam localizadas na mesma região.

Se o corpo está ali, para onde vai a essência do Hunter?

Essa é uma tese não provada, exceto pelo fenômeno "volta do ser".
Voltar da ilusão é algo bem difícil de acontecer. As lendas dizem que, para que isso aconteça, o primeiro passo é a consciência "despertar" no lugar onde foi parar. Geralmente,essas mesmas teses apontam para um lugar profundo dentro do próprio espírito da vítima, onde o Hunter se encontra selado pela ilusão das Lullabys.
Uma vez "desperto", voltar para a superfície é a experiencia mais terrível de se passar. É como se a ilusão apagasse todo o senso da verdadeira realidade e colocasse no lugar a "verdade segundo a visão das Lullabys".
Elas vivem em uma. Os Hunters em outra. E é por isso que é tão sofrido a volta do caçador para a sua realidade esquecida. Funciona como se a vítima pensasse e agisse num cenário montado em tão perfeita harmonia, até descobrir, aos poucos, que até estar em certo lugar, de fato, nunca esteve. É assombroso e maligno o efeito colateral dessa maldição.
Muitos perecem ou morrem tentando voltar para a superfície. É tão lancinante e intensa a dor que, de cem Hunters atingidos, trinta conseguem voltar ao estado que se encontrava antes de ter sido alvo da ilusão. É uma escalada inumana, das profundezas até a luz do esclarecimento de quem é, na realidade.
Neste caso, na ilusão, quem controla o corpo, enquanto o Hunter está "adormecido"?

As Lullabys, claro.

Elas possuem o código exato das memórias e consciência da vítima e usa parte dela para que aquele corpo vivo lhe sirva como escravo. Algumas não usufruem muito dessa capacidade. Outras exploram até a morte aquela pobre alma, definhando-o lentamente. Essas, geralmente mais poderosas do que as Lullabys comuns, fazem uma ação imperdoável, que são uma das que deixam o vasto deserto em colapso: essas criaturas colocam Hunters contra Hunters. E algumas vezes as batalhas chegam até a morte de um deles ou dos dois.
Essa profunda ilusão transforma completamente um Hunter, tornando-o diferente daqueles que são abandonados a mercê desse mesmo poder. Uma vez escolhido como "escravo", as Lullabys emprestam um pouco de seus poderes e os Hunters se tornam bem fortes e agressivos devido a essa estranha devoção. Por isso que as batalhas entre os caçadores são extremamente violentas. Enquanto dentro da mentira, são chamados de Iludidos, Dominados ou Pets, sendo esse último termo o pior a ser pronunciado, comumente usado por elas.
Se não bastasse o poder esmagador da ilusão, ter o poder de controlar certos Hunters transforma o chão arenoso do mundo em vermelho-terra, imperando guerras entre irmãos de consideração.
Em um ponto, visto lá de cima interpretado como qualquer outro grão de areia, um Hunter está de indo de encontro ao outro, desejando eu seu interior que não tenha lutas. Porém, indo armado, só prova que ele está, mais uma vez, contando uma mentira para o seu coração.

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Match Tide Village é um vilarejo fantasma onde no passado moravam poucos Hunters e muitos homens normais, conhecidos como Peacemakers. Provavelmente foi esse o número que decidiu o destino do qual essa vila se encontra hoje. Lembrando vagamente a arquitetura do Velho Oeste, as casas de Match Tide Village permanecem repousadas desta forma. Não passa de quatrocentas moradias, tendo direito a uma só praça central onde em outrora discutiam os problemas da cidade ou as invasões das Lullabys. Houve um dia que tivera a última reunião, antes de algum grupo de criaturas passarem executando todos os homens que ali se encontravam ou se preparavam para a guerra. A maioria das casas estão intactas, apenas com marcas de tiros para todos os lados. Dá para imaginar onde as lutas foram mais intensas, pois essas moradias nem teto tem. Paredes foram varridas e grandes buracos dão a impressão de violência que passara pelo local. Marca de sangue seco está por toda a superfície. Olhando o cenário e o que sobra dele, sente-se um gosto amargo de injustiça em comparação aos poderes das Lullabys contra o dos homens.
Ao redor, não muito distante dali, permanecem intactas apenas Gardens que hoje não possuem mais seus Hunters. Parecem que esses reuniram-se e resolveram morar perto de seus jardins, construindo um vilarejo e tentando morar sozinhos, mas dependendo da ajuda um dos outros. Não se pode morar para sempre nas Gardens: os homens precisam de sua independência, cedo ou tarde. Seguir adiante, com seus sonhos escassos neste deserto. Só não se sabe o que passou na cabeça desses Peacemakers em pensar que nunca seriam atacados pelas Lullabys. Poderiam ao menos deixarem de ser preguiçosos ou que poderiam desenvolver um diálogo amigável com essas criaturas, e aprender um truque ou dois para se defenderem.
Escolheram viver pacificamente. Encontraram a morte mais horrenda. Ou a ilusão mais profunda, e nem sabem que são vítimas de uma mentira. Mais triste ainda são essas Gardens, esperando a volta dos seus que nunca mais chegarão para tentar desenvolver a rara Ressonância.
Gipsy caminha em direção à Match Tide e, no caminho, encontrou o Hunter que lhe fez a ligação.
Contara que ele e o amigo dele estavam explorando a região atrás de suplementos quando se deparou que haviam duas Lullabys no vilarejo, e Glasses surgiu de repente. Aparentemente estava escondido, esperando a hora certa de atacar. Ele conseguiu trocar muitos tiros e golpes com as duas criaturas e, quando esse Hunter se aproximou com seu amigo para tentar ajudar, Glasses negou e pediu para que não interferissem na batalha. Uma das Lullabys cochichou algo com a outra e saiu da batalha, partindo para o leste e deixando sua amiga contra o Hunter. Talvez a noite teria sido a vantagem da criatura, e antes mesmo da luz do dia raiar no céu do deserto, Greenglasses fora atingido, caindo de joelhos na praça central. Só quando a Lullaby se deu por satisfeita e foi embora, é que os dois Hunters exploradores se aproximaram do amigo de Gipsy, que pediu, muito ferido, para que entrasse em contato com o DeepSea.
Ainda demoraram um pouco pois o aparelho de comunicação que carregavam na exploração estava muito velho, dificultando estabelecer as ondas de comunicação. Desejaram sorte para Gipsy e Glasses, mas que muito provavelmente o segundo já se encontrava na praça central batendo a cabeça no chão e babando pelos cantos das ruínas assim que Gipsy chegasse lá.
O portador da Lúdica se despediu da dupla e seguiu em frente. Não muito tempo depois, estava na entrada do vilarejo fantasma. Passou um monte de possibilidades pela sua cabeça: perguntas sobre o que Greenglasses estava fazendo todo esse tempo e o que deu nele de querer enfrentar duas Lullabys sozinho. Pensou também na hipótese de tudo ser uma armadilha dos Hunters que entraram em contato com ele, ou até mesmo uma armadilha de alguma criatura que estivesse escondida em Match Tide. Um pouco de si queria que tudo isso fosse verdade. Ao menos, pouparia da difícil missão de ter de enfrentar seu próprio amigo, caso ele fosse vítima de uma ilusão profunda.
Adentrou por entre as casas e vielas, e instintivamente carregava a arma de fogo e sua outra mão jazia na bainha da espada estranha. Caminha pé ante pé sem fazer barulho nenhum, se esgueirando até a praça central. O cenário para o homem não era desconhecido: havia passado ali muitas vezes, antes e depois do massacre.Só não tinha o mapa mental exato do local. Mas para onde deveria se dirigir, ele sabia de olhos fechados.
Chegou no centro do vilarejo com a leve brisa que rodeava o local. Estranhamente o Sol estava por entre raras nuvens e não fazia tanto calor como os heróis da areia estavam acostumados. Enquanto Gipsy saia de uma sombra que tomava um corredor estreito entre grandes barracos, Greenglasses permanecia na luz, ainda de joelhos, curvado pra frente e os braços soltos, com as mãos largadas no chão empoeirado. Cabeça baixa, escorria sangue de sua testa.A luz do dia projetava em seu rosto uma certa sombra onde, naquela distância, não dava pra distinguir se seus olhos estavam fechados ou não. Seus óculos de lentes verdes fundas, típico de motoqueiro do deserto, que sempre usou acima de sua testa, está trincada e sua armação arrendondada de aço bem arranhada. Glasses dessa vez havia passado dos seus próprios limites.
Gipsy foi se aproximando com cautela, olhando para todas as direções rapidamente, mas perdia mais tempo fitando diretamente o amigo.
Ouvindo os passos, Glasses levantou com certa dificuldade a cabeça e da sua boca caia uma bela linha grossa e vermelha. Sorriu de uma forma fraca e sem graça, sem mostrar os dentes, e com os olhos semi-cerrados:

— Amigo...! Você está um pouco atrasado — Falou com a voz fraca.

— Glasses...Oh, Glasses. Você..? —  A voz de Gipsy  saiu com uma enorme pena do amigo ali ajoelhado, como se não quisesse acreditar no que estava vendo.

— É, pois é. Fui atingido novamente, Gipsy. Há... Acho que eu nunca aprendo, né?

— Não fala assim, companheiro. Olha, eu estou aqui...

— Obrigado por ter vindo —  e tossiu, cuspindo sangue na areia da praça central, respingando num monumento que servia como o marco zero do vilarejo.

— Posso ver o quanto isso é preocupante, Glasses? — Gipsy foi se aproximando cautelosamente dele, fazendo menção de abaixar perto do amigo, mas assim que se aproximou e observou a ferida, ele levantou num rápido movimento, levou sua mão na boca e se virou pra trás, andando em círculos com passos nervosos de quem não sabia o que fazer ou pra onde ir.

— Agora entendeu o por que pedi para te chamar? —  Greenglasses forçava um humor de um moribundo. Vez ou outra tossia e mais sangue era expelido daquele corpo que se aventurou onde não devia.

— Por que, meu, por que você se descuidou a esse ponto? —  Gispy se encontrava tenso, fazendo gestos exagerados e apontava pra ferida profunda no peito do amigo.

— Poupe-me do sermão dessa vez. Só desta vez... —  após uma pausa, continuou —  Eu te chamei porque eu confio em você e só você pode me realizar esse favor. Você pode fazer por mim?

Glasses começa a chorar. Suas lágrimas já não são mais de desespero, mas de uma tristeza lamentável. Descem quentes e lava um pouco o rosto sujo de terra e sangue. Gispy se comove com a cena e o pedido do amigo:

— Antes que o veneno se espalhe e me traga as trevas da ilusão, antes que ela possa controlar meu corpo e minhas vontades, por favor —  E, levantando com dificuldade, ele traz com as mãos seus óculos até os olhos —  Lute comigo e me vença.

Era isso que o coração de Gipsy temia. Que a Lullaby jogasse Greenglasses contra qualquer Hunter que aparecesse no caminho.

—  Será uma honra cair aos seus pés como um bravo Hunter, Gipsy! Mas você demorou um pouco....Sinto que ela já tem parte do controle do meu corpo. Por favor, não demore e venha com tudo pra cima de mim. Lhe darei uma boa luta.

Suas lágrimas saem de forma mais intensa, e range os dentes de raiva, por pedir algo tão doloroso para o amigo. Não era a primeira vez que passavam por isso juntos. Mas nunca há a certeza de salvação.
Gipsy passa o braço nos olhos, secando algo que não deixou Greenglasses ter a certeza do que era.
Seu esforço foi  em vão: no movimento onde Gispy levantou sua arma de fogo para a testa do parceiro, uma gota salgada caiu no chão ensanguentado, dando início a uma dolorosa batalha...






                                                                                             Fim da primeira temporada















sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Short Novel - Heróis de Areia ~Capítulo 9: استراحة

Capítulo 9: استراحة


1 mês depois...

Móveis e toda e qualquer tipo de bugiganga começava a tentar ganhar vida, para só então possuir um merecido propósito novamente. O espaço que aparecia naquele ambiente pela mudança de lugar de cada objeto e o pó tirado de cada um deles era obra de um deus deles que os havia abandonado a muito tempo. Um Deus confuso, egoísta, difícil de se prever e que, aos poucos, morria.
Envelhecia a cada segundo e começava a esquecer o rosto de seus companheiros. Não por maldade declarada, mas a mente já não estava trabalhando tão bem feito uma engrenagem nova de um belo e notável relógio. Cismava em girar em um ritmo lento e à desejar para fazer funcionar um corpo ágil e um espírito que já foi mais forte, em outras épocas.
Suas viagens se tornaram mais constantes e solitárias à sua Garden e aquilo que era inédito passou a ser rotineiro: Gipsy não caçava mais Lullabys. Tomava rotas alternativas que nunca havia tomado na vida, onde sabia que a movimentação dessas criaturas era rara. Era avistar uma chegando perto e prontamente se camuflava, atuando novamente com movimentos que o lembrava de um tempo que ele era um mero aspirante à caçador e que acreditava, com toda força e ímpeto de um jovem que jamais teria capacidade se tornar um Hunter. Se esconder em pedras, se camuflar em algumas regiões onde a superfície parecia mais com o Deserto do Saara e andar em trechos onde era tão limpo e vazio de elementos naturais que não havia nada que o pudesse esconder ou abrigar. Nenhum Hunter pegava principalmente essa rota pois ficavam muito expostos a ataques de alguma Lullaby de passagem ou sedenta por uma marionete. Entretanto elas, pensando dessa forma, também não percorria essas regiões. E era ai que Gipsy encontrava vantagem na forma ridícula que os Hunters e Lullabys pensavam em comum. Era praticamente um homem invisível passando por dois ideais cegos feito criaturas subterrâneas que nunca viram a luz do sol.
Quanto ao seu jardim, seu estado até tinha melhorado um pouco, porém permanecendo crítico. E em relação à ele, os sonhos continuaram com aquela voz desconhecida e o dono dela com sua forma indefinida. A cada sonho, mais e mais sistemas de ventilação natural era criado e acoplado na Garden, como pequenos tornados que serviam de limpeza do terreno, expelindo (ou tentando) todo o sal que condenava o solo. Gipsy sonhava com o surgimento de um novo tornado e, quando visitava a Garden, lá estava ele, no exato local que apareceu em seus sonhos em outras noites.
Poderia a Garden do Hunter estar tentando se auto-curar? Era possível que o poder de um jardim chegasse nessa consciência? Seria cada elemento ali lutando pra sobreviver como um todo, cada um fazendo sua parte, talvez. Nunca se soube o poder real de uma Garden e o que ela pode fazer. Mas Gipsy ficava com o rosto latejando toda vez que lembrava da ocasião que sua cabeça foi quase arrancada pela raiz do jardim de Ward.
Se não fosse tudo isso, quem a estaria ajudando? Quem era o homem que invadia os sonhos do caçador e lhe dava dicas de procedimento, ao mesmo tempo que acoplava os "aspiradores naturais" contra os sais nocivos?
Esses pensamentos e ações faziam o corpo e a mente de Gispy tomar novos costumes, quase de um senhor de muitos anos. Era totalmente diferente do que ele era, não estando nem com trinta e cinco anos de idade estampado no rosto. O Hunter passou seus dias e suas noites assim, se concentrando em suas viagens e mudando alguns objetos de lugar no Q.G.. Aliás, não tinha mais certeza se aquilo podia continuar sendo chamado de quartel general. A situação do grupo possuía uma ruptura em seu coração: Cordas sumiu do mapa. Rumores diziam que ele também fazia viagens, tomando todo seu tempo. Glasses passou a frequentar menos a base do DeepSea e aprimorando suas técnicas em caçadas medianas. O telégrafo, o telefone antigo movido a energia Egocon e as cartas começaram a se tornar cada vez mais raras com propostas de caça de algum homem que não foi capaz de se tornar Hunter ou que escolheu possuir uma vida pacata até o dia infeliz que trombasse de frente com uma Lullaby, que muito bem poderia também estar ameaçando essa ou aquela região.
Gipsy virava e mexia se pegava refletindo sobre quantos Hunters já havia passado pelo Q.G., sendo oficiais ativos ou só mesmo contratados para caçadas específicas. Under W., Bone,  Hombre S.,  Rhussiann, Christopher, Sleepooh, Chaotix,  Vicky, Punch K., Vanitas (esse último em raras ocasiões) e tantos outros da lista que sua mente não permitia lembrar.
Ele sempre ficou encarregado de agendar e distribuir as funções e missões que cada membro do grupo realizaria. Tudo de uma forma democrática. Entretanto, a partir do momento que ele começou a esquecer mais de si mesmo e se tornar negligente sobre suas funções, seus amigos não viram outra alternativa senão fazer suas próprias caçadas. São homens ,acima de tudo, independentes. Com qual com um único objetivo em comum: caçar e silenciar Lullabys.

Mas era simplesmente mágico quando juntos, formavam o temido grupo DeepSea!

O portador da Lúdica precisava admitir: ele mesmo deu um cheque-mate no grupo. Como se isso não fosse o bastante, Greenglasses e Quatrocordas sabiam que o amigo precisava de um tempo, ou umas férias. Desconfiavam apenas entre eles que fatalmente poderia ser férias permanentes...
Aos pupilos, Gipsy deu um recesso de alguns meses. Suas ausências de espírito nos treinos começavam a ficar cada vez mais presentes, tirando-o fora de foco. Tomou então a atitude de assumir sua falta de presença:
Como ser humano...
Como Magister...
Como Hunter e Alone Howl...
Como membro do DeepSea...

O grupo desmantelou-se de vez e só um milagre para acelerar o tempo e colidir com possibilidades que poderiam fazer o DeepSea voltar ao estado que se encontrava antes das perguntas sem respostas...


...O milagre veio. Fragmentado em doses homeopáticas de caos e surpresa...

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Cada Hunter na face desse planeta arenoso tem sua própria moradia. Mas sabe-se que cada um também possui um esconderijo, para evitar ataques surpresas de Lullabys. Esse lugar é ocultado até mesmo de outros Hunters que possam pertencer ao mesmo grupo. É conhecido como um retiro: serve para colocar as ideias no lugar, se preparar para batalhas ou mesmo se curar de uma. Se por um lado Gipsy nunca deixou transparecer quaisquer pista de possuir um esconderijo (mesmo porque o Q.G. sempre esteve em lugar estrategicamente oculto à céu aberto), outros do grupo DeepSea poderia ter o seu próprio retiro.
Cordas é um deles...
De todos os membros que são ou já foram do D.S., QuatroCordas é o Hunter mais equilibrado e quieto. Sua sensatez se equipara com a de Vanitas, perdendo em apenas em alguns pontos e ganhando em outros. Um Hunter que mais ouve do que fala. Saber o que planeja, o que faz ou para onde vai, só se descobre se ele permitir com toda a sua vontade. Caso contrário, jamais passará por aquela muralha de segredos que até parece que os grãos de areia do deserto mundial não o alcançam.
Na mesa, onde o homem alto se encontra debruçado em estudos e mais estudos dentro de seu esconderijo, papéis espalhados sobre a superfície tem o peso do mundo. Aqueles documentos foram buscados no período que Cordas visitou Vanitas e que Gispsy jamais desconfiou que ele havia passado em outro lugar, saindo da casa do Hunter de cabelos quase cinzas, naquele fatídico dia.
Aparenta dias que Cordas não dorme. Cabelo bagunçado, olheiras querendo aparecer em seu rosto de idade similar à de Gipsy e Greenglasses e o cansaço estampado em seus olhos que absorveram em outrora revelações que ele se negava a acreditar. Porém, agora não fazia mais sentido ir contra elas. Na mesa daquele homem, os documentos de um passado esquecido e ocultado quebravam os paradigmas da existência. Era uma realidade escrita entrando em conflito com uma realidade de carne e osso, que travou uma batalha sentado, estudando minuciosamente suas linhas e veracidade. Foi uma batalha digna, apesar do silêncio. Mas os documentos venceram aquele monumento. Mas colocava o homem no topo entre muitos outros, mostrando que todos lá embaixo eram iguais. Carregavam uma história que nunca desconfiaram.
E que ele, sendo o homem da montanha de prata, tinha a divina missão de avisar, escolhido à dedo, sobre a verdade.
Pensou imediatamente em Gipsy e em Glasses.
Seu estoque de Sand Beer havia sido esgotado em cada linha lida que era difícil de engolir à seco. Bebericou o restinho que tinha da última que se encontrava na mesa, juntou os manuscritos e preparou a mochila de viagem.
O problema não era tanto chegar em poucos dias ao famigerado quartel general que não via à meses. E sim a quase impossível missão de tentar colocar o que descobriu dentro da mente duvidosa que Gipsy cultivava. Não fosse por essa crise, Greenglasses com certeza daria mais trabalho para absorver a verdade.

— Não tem jeito, terei de descobrir alguma maneira de colocar isso na cabeça daqueles dois paçocas! — Murmura para si mesmo. Depois, continua —  Vanitas estava certo. Tudo aquilo era verdade. E, se não nos apressarmos à entender alguns processos, perderemos mais amigos e essa guerra nunca terá fim.
Colocou a mochila nas costas, trocando suas armas de lugar e colocando num outro compartimento, do lado de dentro do seu casaco pesado de viagem. Aparentava ter o peso que só Cordas poderia aguentar. Com suas armas, então, ficava difícil calcular...

Saindo do esconderijo, enquanto caminha, Cordas fala em um tom aflito:

— É, Gipsy, se você está cansado dessa merda de realidade, te levarei então um novo ponto de vista dessa droga toda! Cabe à você decidir o que fará daqui pra frente...

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Quatrocordas via Gipsy numa corda-bamba em relação ao seus sentimentos e obstáculos. Ele mostrava melhoras e quando menos esperava, ele se enfiava no breu dos seus pensamentos e era terrível tira-lo de lá. Gipsy sempre mostrou um lado confuso e frágil em lidar com esse tipo de coisa. Apostar na compreensão do portador da Lúdica, mesmo neste estado, era a mesma coisa que jogar uma moeda para cima e ver se o resultado vai dar cara ou coroa.Se isso poderia irritar a maioria dos Hunters que se aproximavam de Gipsy, por outro alimentava uma ingênua esperança nos corações dos que se encontravam perto desse confuso caçador. Cordas, com todo aquele tamanho, era vítima desse sentimento que Gipsy fazia qualquer um irradiar à respeito dele. Com uma única diferença: Quatrocordas estava disposto a fazer o líder do DeepSea engolir manuscritos goela abaixo caso recusasse a não ouvir ou ler. Cordas sempre foi muito simpático neste ponto. E sistemático, e com pouca paciência nisso também...

É dia. O sol não deu as caras no céu ainda por conta de nuvens muito brancas em contraste com um azul muito bem espalhado. Ao que parece, não será aqueles dias infernais de Sol a pino.
De repente, Quatrocordas pára de súbito. Seus sapatos de bico fino e salto ficam paralelos um ao outro. Ele sente e vê que a brisa do deserto parou por um instante e mudou a direção. Passou por ele como um corte. Não contemplou o silencio que se encontrava nesse milissegundo: girou o corpo pra direita e tomou impulso, flexionando os joelhos e pulando com força para trás, subindo uns oito metros do chão. De cima, viu ao mesmo tempo que, onde se encontrava, fazia um caminho de balas perdidas bem servidas que não encontrava o alvo e só restava se espatifar contra aquele solo. Por pouco não foi atingido.
Quando encostou os pés no solo novamente, seu braço direito segurava ainda mais forte a alça da sua mochila e o braço esquerdo estava solto, caído e com a palma da mão voltada para o chão. O braço se encontrava na frente do corpo que girou o tronco e colocou-o em posição de defesa. A atiradora se revela, vindo rápido de um ponto distante, onde havia uma elevação de areia. A maioria dessas criaturas tem um corpo esguio e são ágeis a ponto de ,quando correm, parecem flutuar. É pouco, se comparado aquelas que sabem voar...

— Havia me esquecido de você! —  Cordas fala para a Lullaby.

— Como assim? —  A criatura de roupas leves e cabelos semi-cumprido pergunta um tanto interessada.

— Há dias que notei que você estava em meu encalço, mas consegui fazer de um jeito que eu ficasse oculto perante seu faro de dominar corações e mentes de Hunter inexperientes.

— ... E o que me diz de agora? Devia prestar mais atenção no seu...

— ...Coração? É, você tem razão. — Quatrocordas concorda —  Como eu estava andando depressa, achei que ele estivesse incomodado apenas com o meu jeito apressado de prosseguir viagem. Notei mesmo pela mudança da brisa. Em outras palavras, pertencer a uma raça poderosa é fazer muito escândalo, não acha?

Cordas tentou manter o senso de humor raro que tentava ter nessas horas. Mas pensou consigo mesmo:

— Mas que merda! Os estudos me consumiram tanto que eu esqueci que dias atrás eu havia despistado ela. E agora? como vou fazer pra ela sair do meu pé?

Cordas reflete em seus pensamentos.Em seguida, fala para a Lullaby:

—  Parta imediatamente. Prometo não levantar minha arma contra você, criatura!

— Hunter, como é ingênuo.Além do mais, eu tenho nome, sabia? Belthias está louca pra saber como você pode tentar ME CAÇAR!

Sua emoção na fala a fez mirar sua arma que se assemelha a uma Shotgun com detalhes que só as Lullabys apreciam em suas armas. Definitivamente, a estética das armas das criaturas é uma mistura surreal de traços alienígenas e angelical, desde engenhocas acopladas e desenhos ou até mesmo asas de origem desconhecida. Não hesitou em descarregar alguns tiros no Hunter. Esse já teve de se movimentar mais rápido para não ser atingido no peito.

—  Belthias, você não perde tempo, hein? Mirando logo no coração?—  Cordas retrucava, quando conseguia alcançar os pés no chão após alguns pulos para desviar, e se preparando para mais esquivas de longas distâncias.

— Meu bem, pra que atirar na sua cabeça primeiro, se o coração pode mandar mais rápido a informação que você será meu escravo particular? É engraçado como vocês funcionam e reagem perante nosso poder! —  Belthias ri quanto responde, esforçando-se para mirar  o Hunter que, apesar de grande e pesado, possui uma movimentação digna de um Alone Howl.

— Eu não precisava de mais nada! —  Cordas pragueja a si mesmo — Justo hoje que eu estou com uma pressa dos infernos, eu tinha de trombar essa desgraçada? Isso vai atrasar um pouco meus planos. Além disso, não posso deixar ela desconfiar do que eu carrego na mochila e que tampouco eu sei daquilo!

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Gipsy se dirigia à dispensa e, em seguida, a sua geladeira. Ela estava com seus dias contados, pois tentava a todo custo, como um troço velho, gelar ou conservar os alimentos. Além disso, o Egocon que servia como fonte de energia "elétrica" desses aparelhos estava no fim; fazia tempo que o Hunter não caçava e estocava essa fonte provenientes das Lullabys. No caso da geladeira piscar sua luz e mal funcionar, é porque ela realmente estava sofrendo um grave problema de junta...
Ele tinha a péssima mania de abrir a geladeira quando saia do banho pra tomar uma água gelada. De toalha na cintura que se estendia até depois dos joelhos, e uma toalha menor de rosto em volta do pescoço, deixando um lado maior cair sobre seu peito esquerdo, escondendo uma estranha marca. Escondia, talvez, do espelho e de si mesmo. Cruzava seu barraco, fazendo uma das poucas antigas rotinas que ainda insistia permanecer naquela figura: seu cabelo até o pescoço, definidos com mechas pontudas para trás, servindo como um caminho único para as gotas d´água que escorriam para  o seu corpo definidamente riscado, nada exagerado em seu físico. Não era gordo nem magro: era um corpo preparado para batalhas. Ultimamente deixava a barba por fazer, deixando-o com um ar de desleixado.
Molhado desse jeito, e abrindo sua velha geladeira, sabia que cedo ou tarde seria surpreendido  por um resfriado daqueles. Mas ele nem se importava mais com isso. Nem com o nariz congestionado. Nem com o ar seco e áspero do deserto. E nem com a combinação terrível dos dois.
O telefone movido a escassa energia do Egocon deu o ar da graça. Gipsy quase se engasgou com a água pelo susto que levou.
A quanto tempo não havia uma chamada? Ele não lembrava mais.
Deixou a garrafa em cima da escrivaninha, instintivamente segurou a toalha de rosto repousado no pescoço por um dos lados e atendeu. Do outro lado da linha:

— Alô! É do grupo profissional de caça DeepSea?

— Estamos fora de serviço, chapa. Por tempo indeterminado.

—Quem é que está falando?

—...Gipsy. Olha, não adianta insistir, não est...

— O líder do grupo? Melhor ainda. Preciso falar urgente com você.

—Tá difícil de entender ou você quer que eu desenhe? Não estamos pegando trab...

—Creio que você conhece Greenglasses. Ele é do seu grupo, certo?

—Hmm..é...ele...er....eu conheço ele. Por que?

—Então é melhor você vir correndo aqui para a Match Tide Village. Seu amigo foi atingido gravemente por uma Lullaby...