quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Short Novel - Heróis de Areia ~ Capítulo 19: A Obsessão e a Muralha



Capítulo 19: A OBSESSÃO E A MURALHA


 O corpo de Gipsy estremecia violentamente no chão. Era o sistema nervoso dando o seu "adeus". Se tentava dizer algo, engasgava com o próprio sangue que substituía a saliva seca. Jorrava, praticamente, o líquido vermelho da boca e da imensa ferida. E a areia aprontava-se para absorver mais daquilo, independente da raça tombada. Diziam, por todos os cantos do deserto, que o deus da areia tinha uma sede especial pelo sangue dos homens. Bebia do suor deles, e secava o corpo dos pobres humanos. Deus vil, que parecia não importar-se senão apenas pela própria sede infinita...
Cordas abaixou-se, pegou o maço de cigarro no bolso da jaqueta negra de seu amigo, que por sorte não fora cortado, mas seu suporte estava manchado de sangue; acendeu um e ficou ali, parado, de pé e de olhos fechados, como se esperasse alguém.
Aquele corpo empapado de sangue começava a lhe dar nos nervos, quando ouviu passos naquele caos silencioso. Dirigia-se, calmamente, pela planície de corpos da platéia, em direção ao palco. Passos estes firmes e graciosos, quase na ponta dos pés. A dona dos passos, que não parou e continuava avançando, começa:

 Isso tudo era alguma rincha ou inveja de seu amigo, Cordas?

 Não, Florença. É a sua ilusão que é uma bosta.

O Hunter espiou rapidamente para o lado e viu o corpo do falso amigo sumir em pétalas de rosas. Voltou a olhar para Florença, que ainda caminhava calmamente até o palco.

— Isso....foi muito grosseiro...! —  Disse, ofendida, a Lullaby.

— Oh, desculpe-me! Não quis ofender! Você acertou em muitos pontos. Tudo aqui é muito mais real do que qualquer Lullaby poderia fazer. Na última hora, como de praxe, você erra em um ou dois detalhes.

— ...

— Florença, eu não sei o que você pensou quando fez isso, ou se talvez não tenha total controle da sua ilusão , mas o erro está justamente em colocar Gipsy nela. Pensou que enrolaria-me com a presença dele?

— Eu...ah...Eu não entendo como você...?

—  Estávamos, Gipsy e eu, juntos, apenas uma vez em Two-Cannons. Mas, naquela ocasião, e sei que você se lembra muito bem, a festa já havia acontecido e ele estava sob domínio de sua algoz. E veja só: você também estava lá! Foi onde tivemos a nossa primeira batalha, e foi quando Gipsy quase matou todos nós!

A Lullaby estava em pânico. Ou qualquer termo que seja sinônimo de "confusão" para uma raça pensante. Perguntava-se como, naquele estado de profunda ilusão, Quatrocordas poderia lembrar ainda de tudo.

—  Aquele desgraçado sacou a arma e resolveu atirar em todos, só pra ter certeza de que acertaria até a criatura que o controlava. Embora ele não soubesse que estava sendo controlado, ali ele ja desconfiava de algo. Pra quem não raciocina muito nestas horas, isso era realmente típico de Gipsy. Era isso que faltou para a sua ilusão ser "perfeita".

— Isso...isso é INACEITÁVEL! — Grita a Lullaby! —  Como você lembra disso aqui, agora? Era...era pra você aceitar essa ilusão como verdade absoluta. Recriei o cenário, os Hunters ao redor. A noite e as estrelas! Como? COMO VOCÊ PODE SE LEMBRAR DA VERDADE?

Florença esboçava desespero.

— Metade da resposta está em Gipsy. A presença dele, em todas as cenas que eu lembro dele, são muito marcantes; bom pra minha memória de peixinho. — Cordas deixa escapar um riso — Apesar de você retratar as manias e os movimentos dele muito bem. A outra metade, Florença, eu te convido a ver um pouquinho mais de perto.

O Hunter dá a última tragada, joga fora o cigarro e diz:

— Venha, aproxime-se! Chegue mais perto... se puder!

A Lullaby enfureceu-se como nunca tivesse feito isso antes! Tamanha raiva e descontrole tomou seu coração e movimentos; seu corpo agora ignorava qualquer patente do escalão EX- CUTION e partiu para cima do Hunter, com força para faze-lo em pedaços, controlada pelas cordas manipuladoras das irmãs infernais Ira e Cólera.
Voou para cima de Quatrocordas mas, ao chegar perto do palco, levantou-se uma muralha de terra, grossa e resistente, cercando o homem como uma caixa. Isso fez com que Florença levasse um susto e desviasse a poucos centímetros da proteção criada.

—  Isso é impossível! IMPOSSÍVEL!!! — esbraveja Florença.

—  Não é nada impossível! Você pode me fazer de gato e sapato com meu corpo lá fora. Posso não ter habilidade o suficiente para enfrenta-la no deserto. Mas aqui dentro, Florença, sou eu quem manda nesta porra! E você não vai me atingir!

****************************************************

No mundo real, distante dali, o chapéu de Gipsy nem havia chegado ao chão quando Iuvenis percebeu que o Hunter já estava do seu lado, atacando pelo seu flanco esquerdo. Virou  a coronha da sua Sniper, e os três cortes rápidos da Lúdica foram bloqueados, por pouco.
Ele aparentava estar com pouca paciência, sacando a arma e dando três tiros em direção a Lullaby que desviou dele com facilidade. Em seguida, afastou-se do Hunter, deslizando  com repetidos pulos para trás.

— Eu poderia jurar que eu o tinha acertado. No entanto ele tá de pé, bem disposto — pensou Iuvenis.

— Está pensando no que? —  perguntou Gipsy.

— Hm... em nada. Eu acho...eu só acho que eu te subestimei.

—  Típico da raça de vocês. —  Sorri o Hunter.

—  Tem algo de errado neste caçador... — mentalizou a Lullaby.

O homem corre na direção da criatura, desliza pela areia e dá um corte horizontal na altura do joelho da rival. Esta sem tempo de virar seu rifle e colocar Gipsy em sua mira, apenas pula, de forma reta, e bem alto. Gipsy olha para cima e salta também, para alcançá-la.

— Quantos de nós você ja derrubou? —  Pergunta Gipsy no ar.

— Alguns. Não muitos... — Responde Iuvenis, acima dele, ainda ganhando altitude.

— Hm...

A luta poderia estender-se no ar por mais alguns longos segundos. Encaixaria, naquele momentos, e porque não dizer "bem vindos", golpes com a lâmina ou disparos de sua arma. Entretanto, a oculta e estranha opção de recuar do Hunter o fez voltar para o solo e esperou a Lullaby fazer o mesmo.

Na superfície de areia, os dois encaravam-se novamente. "Esse Hunter só pode estar variando das idéias", pensou a criatura. "Quando eu acho que ele vai esticar a batalha, agir como um Hunter realmente age, ele assombrosamente recua. E que diabos foi aquele primeiro contra-ataque dele? Ele teletransportou?"
Saiu de seus pensamentos e notou que Gipsy a encarava com os olhos apertados. Sutilmente, começou a andar para o lado, joelhos levemente flexionados; virado totalmente pra frente, fitando a Lullaby. Trocando cuidadosamente seus passos para o lado, circulava, em sentido anti-horário Iuvenis, com distância segura.
Esta, por sua vez, optou por ficar parada, apenas observando atentamente. Interpretou uma grande perda de tempo, os movimentos do Hunter. Decidiu dar um basta, afinal, a situação daquele lugar prometia piorar. Quando olhou  nos olhos do homem, pronta para mira-lo novamente em seu rifle, sentiu uma estranha sensação.
Conseguiu coloca-lo na mira mesmo assim, todavia seus movimentos eram como se fossem totalmente estranhos para si mesma. Não notou quando ela começou a imitar perfeitamente os movimentos de Gipsy de forma inversa, como se fosse um reflexo do caçador. Ele não deu sinal que faria um movimento rápido, de súbito, para cima da criatura.
Ela piscou, tomada por uma dormência agradável que a rodeava, Mas, após piscar, a sensação sumiu e precisou decidir em realizar dois movimentos diferentes nos dois milésimos de segundos que se seguiu. No primeiro, notou a ausência do homem que estava até agora pouco na sua frente. No segundo, sair da posição de atirar e usar sua arma instintivamente para se defender.
A lâmina da Lúdica por pouco não afundou em seu pescoço. O homem estava, de forma inexplicável, perto dela novamente, pressionando o metal afiado contra o rifle. Os olhos de Iuvenis estavam bem abertos, assustados com o tranco do ataque surpresa.

— De novo! — Ela pensou — De novo ele pareceu ter sumido diante de meus olhos.

Iuvenis segurava horizontalmente o rifle como um cajado que defendera um ataque. Colocou um peso abominável, mais do que seu corpo lindo e esguio permitia, nos seus pés, fazendo- os afundar no chão, rachando-o. Em seguida, empurrou para frente com sua arma o ataque do homem, fazendo-o recuar a metros de distância.

—  Como fez isso?

—  Huh?

— Você sabe, sumir da minha frente novamente...

— Eu...?

—  Não se faça de idiota! —  Iuvenis esbravejou.

—  Mas eu não fiz nada — retrucou o homem.

Ele suspirou. Exibia realmente uma inocência e era convincente em suas palavras. Iuvenis acreditou nas palavras dele, e isso a incomodou muito mais.
O homem guardou a arma e a espada. Voltou para a posição inicial. Sem qualquer defesa, parado, sem tirar os olhos da Lullaby, como se estivesse dentro do seu próprio barraco observando um móvel qualquer.

— Não vai me atacar?

— Agora não...

— Por que, maldito?

— Porque eu não estou afim.

— Construí, ate hoje, uma ideia totalmente errada de vocês, Hunters. Achei que, quando entrassem em uma luta contra a nossa raça, fariam de tudo para sair vencedores. Agora explica o fato de muitos estarem tombando ou sendo nossos escravos nos últimos tempos. Com atitudes dessas, não esperava menos da sua raça limitada!

Enquanto o tempo não decidia se trazia de uma vez a tempestade de areia ou não, o vento que cruzou os dois e trouxe uma poeira densa entre eles, fez com que Gipsy evaporasse no ar, assim que esta passou. Iuvenis piscou uma ou duas vezes e espantou-se novamente com essa facilidade do Hunter de sumir diante dela e, nervosa, ergueu novamente a espingarda na direção de onde ele sumira. Contraiu os músculos do dedo e estava pronta para atirar naquela mesma direção, na pressa em que achava que o homem pudesse estar ali, usando algum truque que lhe causasse uma ilusão de ótica. Olhos bem atentos, apertados, fitando com meticulosidade a frente. Um grão que passasse arrastado pelo vento de forma "diferente" e Iuvenis mostraria o quão a juventude dela nada está ligada ao tiro rápido e certeiro que esconde um nível quase milenar. Um sopro quente, bem perto do seu ouvido esquerdo, desceu cinicamente carinhoso, percorrendo seu pescoço abaixo como uma lufada cautelosa, dizendo:

— Nunca mais me compare a qualquer outro Hunter.

Iuvenis deixou escapar um gemido de susto, medo e uma minúscula sensação de êxtase. Estavam as três sensações tão bem misturadas que seria impossível separa-las: davam as mãos umas para as outras, sem largar. Se tentasse, apertavam ainda mais, causando dor e resistência. Ali, uma não vivia sem a outra. Entretanto não havia tempo para refletir sobre, ou qualquer vergonha que tenha escapado delas, corando a face da Lullaby e liberando um leve tremor pelo corpo dela. Este, por sua vez, não encontrou audácia para sequer virar-se para a voz, ou largar o rifle ou esboçar qualquer contra ataque ou defesa.
O cérebro dela trouxe rapidamente a informação de que aquela voz era de Gipsy. Mesmo não conseguindo virar para trás, ela não sentiu nenhuma ameaça sendo criada por movimentos mortais vindo do Hunter.
Com ótima audição, acertou ao perceber que Gipsy mantinha a espada presa aos cintos.

"Claro", pensou Iuvenis. O Hunter jamais usaria a espada, embora fosse para combate corpo a corpo. Por ela ter provocado o homem como o fez, deveria estar preparada por qualquer reação do indivíduo, da mais simples à mais complexa ou apelativa. Subestimou-o segundos antes de sentir, no meio de suas costas, a ponta da arma dele delicadamente gelada. Seu corpo esbelto parou de tremer ao ser tocado. Iuvenis admitiu, em algum lugar obscuro da sua mente, que descuidou-se e deixou que aquela ação, por parte dele, ocorresse. Estava ainda mirando para frente com sua espingarda, e confusa quanto ao que fazer ou sentir.
Decidiu ficar imóvel. Fingir que não sabia que estava prestes a ser derrubada estava fora de questão pelo cessar rápido do arrepio quando a arma encostou na sua espinha. Dali pra frente, tudo teria de ser minuciosamente calculado se quisesse sair ainda com vida. E é óbvio, se houvesse tempo para isso.

Por parte de Gipsy, o leve desconforto que ouviu naquelas palavras da Lullaby deu as boas vindas à irritação, que passou a comandar as ações nos instantes futuros. Diferentemente das ações anteriores, que jamais foram contadas sobre a vida deste, essa irritação era "consciente". Ao passar dos anos, Gipsy foi possuindo um controle maior de suas ações, de seus pensamentos, tendo apenas como foco a realidade de merda que ele mesmo julgava viver. Fosse em outro momento, ele ja teria perdido as estribeiras e teria dilacerado, sem pestanejar, a Lullaby.
A verdade é que, ao longo deste tempo, Gipsy esbarrou com homens e Lullabys marcantes, e prova que, ambas as espécies, são bem perigosas. Um movimento em falso, e a morte ou a eterna submissão poderia vir de ambos os lados.
Ainda sim, sua irritação consciente pensou demais e ,sem saber se foi de forma proposital ou não, apertou gradativamente o gatilho da sua arma.

Iuvenis conseguiu, no ápice de sua atenção, entrar em sintonia com o apertar gradativo do Hunter que desejava tomba-la. Sem fazer quaisquer movimento brusco para não influencia-lo a aperta-lo de vez, na mesma posição que se encontrava, a Lullaby afrouxou os braços, sem tirar o olho da mira, a princípio. Em seguida, deslizou suavemente, imperceptível, em cima dos segundos, largando sutilmente a arma. quando Gipsy chegou no fim do curto movimento que traria, do gatilho, o tiro de vitória, Iuvenis ja estava livre do peso do rifle, e mostrou pro homem o que o corpo dela é capaz de fazer.

O tiro foi executado, e a bala correu pela imensidão do deserto, se perdendo naqueles grãos ao ar.
Gipsy só conseguiu acompanhar o corpo distorcido da criatura quando esta escapou da bala, refugiando-se na diagonal superior de sua mira.
Perto dele, aos seus pés, apenas o rifle da Lullaby. Ela ainda aproveitou e distanciou-se, pulando para trás, sumindo na poeira que ganhava densidade pelo vento.

— Já dei chances demais para começarmos de verdade isso tudo! Será que você não acha que está na hora de levar isso mais a sério? — Gipsy grita na direção de onde ela sumira no vendaval.

Não obtendo repostas e quase sendo obrigado a fechar os olhos pela areia que valsava cada vez mais impetuosa, Gipsy tirou do bolso interno da sua jaqueta um óculos riscado, porém transparente, que o protegia sua visão de situações como esta. Com a visão um pouco melhor, ainda não sabia onde a Lullaby se escondera. Colocou o pé em cima do rifle, e riu sarcasticamente:

— Teria sido melhor se tivesse camuflada nesse vendaval todo com sua arma. É uma pena porque eu não vou tirar o pé daqui e facilitar pra você.

Ergueu o braço com a arma e apontou pra onde pode, esperando ela aparecer. Um vulto fino e veloz bateu na sua arma, ricocheteando ela para o outro lado, dando piruetas e caindo atrás dele, longe, quase sumindo no seu campo de visão distorcido pelo vento e pela poeira. Ele se assustou com o ataque e não identificou o que batera em sua arma. Pensou em sacar a espada e colocando a mão na bainha, rapidamente a tirou como se levasse um choque da própria arma branca.

— "Ela quer que eu saque as armas que eu tiver para tira-las de mim"— Gipsy pensou. Preferiu deixar sua lâmina na cintura e ver qual seria a próxima ação.

Essa tensão lhe trouxe um cínico sorriso no rosto e fez com que colocasse uma pressão a mais no pé que tinha por baixo a sniper da Lullaby.  Pareceu que a criatura sentiu a sensação de ser pisada tal qual a sua arma, de modo que o mesmo vulto saiu da cortina de poeira do deserto e acertou em cheio a canela direita do homem, batendo e enrolando logo em seguida. O chicote de Iuvenis puxou com um tranco forte o corpo daquele ser, caindo e batendo a cabeça no chão. Ainda conseguiu virar e tentar agarrar o rifle da criatura, mas foi sendo arrastado e,  ao completar a primeira volta, já estava com o corpo centímetros do chão, enquanto girava com velocidade.
Largado, Gipsy aterrizou metros adiante, se chocando num amontoado de rochas  invisível pelo vendaval.

Tonto, correu para detrás do que sobrou das rochas e disse pra si mesmo:

— Caramba! Um chicote! Por que o Higher não me reportou isso?! Tsc, a coisa tá ficando boa!...

****************************************************

Barulhos surdos, seguidos num ritmo caótico, vinham de fora, quase como ecos. Dava a impressão de que a barreira que dividia Cordas e Florença era feita não de matéria sólida, mas de tempo. Dentro da sua concha, o homem encontrava-se de cabeça baixa, olhos fechados, meditando como se a parede que lhe protegia dependesse disso.
Hunters comuns procuram outros Hunter para ensinar-lhes algo de útil. Ótimos Hunters procuram outros Hunters quando querem compreender o maior de todos os professores: o deserto.
Quatrocordas ensinou o básico desta técnica aos outros do Deep Sea sem sequer dirigir a palavra a eles.Porém, nem de longe são considerados os melhores. Há verdadeiros Hunter que, como num passe de mágica, tinham o controle da situação, das Lullabys, do Destino...
Essa transição temporal fazia com que ficasse difícil sobreviver.Também não foi fácil para ele.Pra ninguém, quando nasce neste mundo, nestas condições, nesta realidade.
Se a vida deu uma fortaleza do lado de fora para este Hunter, sua parte de dentro também deveria ser.
Cresceu com a missão de ser uma muralha, dentro e fora de si. Sua Garden o preparou para isso. Mas os Homens nunca são perfeitos. sempre lhes faltam alguma coisa. E o mundo não entrava em harmonia por ausência destes pequenos detalhes.
Neste Deserto faltava esclarecimento. E Quatrocordas, agora, detinha o maior deles...

Encontrou refúgio dentro de si. Parecia que, por ora, seu corpo lá fora não podia mais responder. Agora precisava que Florença desistisse de sua obsessão, e partisse. Mas, assim como os homens, essa raça também nunca foi perfeita. E talvez o destino de ambas era coexistirem e aceitarem quem é o mais forte, fosse quem fosse. O deus vil da Areia nunca esteve com tanta sede...

— Argh! Argh! — Florença arfava enquanto desferia chutes fortes contra a proteção de Cordas. Pulou, atirou uma, duas, cinco vezes. Nada. No chão, encontrava-se de pé, mas ofegante. Aquilo era o fim para ela. Nunca havia se sentido tão mal. Pela primeira vez, resolveu respirar ar puro lá fora...
Abrindo os olhos, Florença viu o corpo do Hunter, a sua frente, tombado, desde sua queda. Fixava seu olhar nele; mesclava ódio e admiração. Sua mente queria acreditar que havia um jeito de tira-lo de lá e ter o controle dele que tinha antes. Mas não achava a resposta. Ela tinha perdido novamente? Perguntas dessa natureza a corroía por dentro numa fúria incalculada.

Perto dali, sobrevoando, passava um trio de patrulha de Lullabys. Possivelmente, faziam parte de uma patente alta da hierarquia da raça, e estavam assegurando que aquela região estivesse devidamente sob controle. Avistaram a silhueta em pé, fitando um corpo no chão e, lá de cima, fizeram um aceno com a cabeça positivamente, descendo em formação de guerra conhecido por elas.
Florença olhou pra cima e fechou ainda mais a expressão fácil, antes mesmo do trio tocar o chão.

— Florença, limpando o lixo dessa área? — Disse a Lullaby do meio;certamente sendo a lider daquela patrulha.

— Me conhece? Eu nunca vi seu rosto — Despreza a criatura.

—  Todas as Lullabys da divisão EX-CUTION tem lá sua fama —  responde, sem muito interesse, a líder. Em seguida, olha para o corpo ao seu lado e continua —  Ora, ora, ora. Olha o que temos aqui...

As outras duas que acompanhavam ja tinham observado bem Quatrocordas, desfalecido, respirando com dificuldade. Uma delas agachou e esticou o mão para passar no rosto do homem. Florença, com o mesmo olhar que odiava aquele corpo, fitava o movimento da recém chegada. Avisou, com uma voz arrastada:

—  Não toque nele!

Ela parou seu movimento no meio do caminho e ergueu a cabeça para olhar para o rosto de Florença, que estavam ficando vermelho de raiva. Deixou escapar um riso de deboche e ameaçou novamente acariciar o rosto de Cordas.

— Suas vadias só seguem suas ordens? Então pede para ela não encostar um só dedo nele. Eu cacei e eu oi derrubei. Onde está a lealdade em nossas regras? —  Florença disse com rispidez.

A Lullaby agachada levantou, mudando sua expressão. A outra, do lado direito, também tomou as dores da amiga e a líder levantou a mão para que elas não avançassem ou passasse por ela. Esta, abaixou lentamente  a mão e disse, suavemente:

—  Florença, se você quiser os parabéns por derruba-lo, você terá. Mas este homem será levado por nós. Ordem superiores. E você  não poderá fazer nada para evitar...















terça-feira, 23 de dezembro de 2014

O Que Não Foi Dito ( Compressão do Tempo / A Despedida )

Manhã, tarde e noite,
 ao mesmo tempo, estampados em um único e singular céu.
Uma estação, isolada, 
permanece como um colo que abriga e protege.
No banco desta estação, 
uma mulher com um grande e lindo chapéu de Sol e vestido leve está sentada.
Seus cabelos, compridos e negros,
parecem dançar enquanto o vento silencioso os convidam para a valsa.
O menino que enxergava todos estes detalhes,
olha rapidamente para trás. Volta-se pra frente e, antes de correr em direção à moça sentada na estação,
 diz para si mesmo:

Logo mais o trem estará chegando. Não posso perder mais tempo...

COMPRESSÃO DO TEMPO

O menino não estava nem a cem metros da estação, e ainda sim poe-se a correr. Distante, e parecia ser a única coisa que fazia som ou barulho naquele estranho lugar de céu misturado, era um grilo, escondido no mato muito verde.
O lugar tinha maravilhosas tonalidades de acetato. Fôra muito bem pintado. À mão... O céu, principalmente, não tinha concorrentes pela pintura magnifica que lhe dera vida.
O menino não estava nem a cem metros da estação mas, assim que subiu o pequeno lance de escadas ( cerca de cinco degraus) para a única plataforma do local, colocou a mão nos joelhos e dobrou-se, ligeiramente ofegante. A mulher não tinha, até aquele momento, virado o rosto na direção do moleque. O chapéu cobria os olhos. Dava a impressão que tinha um sutil e enigmático sorriso no rosto. Um pouco triste também, como de costume...

O menino aproximou-se vagarosamente do banco. Em pé, olhando em direção à mulher que a esta altura já tinha virado o rosto para receber a companhia, começou:

— Então é isso?

— Me diga você — retrucou a moça para o menino — Tudo isso foi você quem fez?

— Acho que sim... Não sei bem ao certo. Gostou?

— Nunca tinha visto céu mais lindo que este. Só nos seus desenhos...

— Sem essa! O que eu consigo passar pro papel é infinita vezes inferior.

— Não se menospreze — advertiu a mulher.

— Não estou, na verdade. Aparentemente, consegui fazer, veja só. Apenas usei uma outra fonte, ou uma outra natureza para concretizar isso.

— É realmente muito bonito!

— Obrigado... — agradeceu o menino. Porém lembrou como começou a conversa e retomou — Então, é isso?

— É...acho que sim — Ela respondeu como se tudo fosse óbvio, virando o rosto para frente, na direção dos trilhos.

E era. Apesar daquelas cores serem tão bonitas e não se parecer com nada pintado daquela forma, todos os surreais detalhes diziam que era real. A paleta de cores beirando o infinito num céu estacionado com seus três períodos, bem homogêneo, as estrelas, o por do sol, tudo, tudo, era prova de que era inacreditável. E por ser inacreditável, ali, naquele momento, fazia todo o sentido.
Ele hesitou em começar. A mulher voltou-se e perguntou:

— Está com medo de falar?

— Sim...

— Por que?

— Porque sei que posso não estar dizendo isso de verdade. Quer dizer, estarei sendo sincero, mas dependo de alguém que me dê vida aqui.

— Como assim?

— Corro o risco de estar sendo manipulado por alguém num futuro distante. Ou nem tão distante. Como se alguém escrevesse ou digitasse todo meu diálogo contigo em um lugar, ou em um tempo que não é daqui.

— ...

— E, sabe, não queria que soasse falso esse nosso...esse nosso último diálogo, entende?

— Por que?

— Porque eu quero que seja bem verdadeiro, real, desde o primeiro momento que criei isso e já conversei contigo. Não me importo de passar por isso. Mas não quero que, quem comanda minhas falas, distorça só porque, talvez no atual momento que se escreve ou  digita isso, já tenha passado por experiencias, situações. Não quero que mude nada. Quero conservar isso.

— E você acha que, por estar tendo essa precaução, esse ponto do qual você acabou de tocar no assunto, já não prova que o que você teme já não está acontecendo, de fato?

—... Nossa! É mesmo!... Bem, então que isso sirva de "trava" para aquele que, neste exato momento, controla minha fala e meus gestos sem ser influenciado pelo que já passou desde este momento.

— Tem certas coisas que fogem do nosso poder— respondeu a mulher.

— Há! Tenho quase certeza que isso que acabou de dizer, aquele que me escreve e descreve ouviu recentemente, no tempo dele, modificando sua conversa comigo!

— Exatamente. Não temos como controlar tudo. Desista de controlar a Compressão do Tempo...

O menino fez uma careta. A mulher ficou divertidamente curiosa:

— Que cara foi essa?

— Agora tenho certeza que muita coisa foi mudada. Você jamais falaria sobre a Compressão do Tempo.

— E no atual estado que me encontro, não seria estranho se eu não soubesse?

O menino calou-se com uma expressão de susto e surpresa. Ambos param de conversar por um tempo e viram o rosto na direção dos trilhos.

—É preciso muita experiência para poder dialogar de forma verdadeira, e falar tudo que sente. Precisa passar por muitas coisas... — divagou a moça, olhando para os trilhos.

— Mas temo pela distorção de tanta informação que recebemos diariamente. Tenho medo de não poder conversar sinceramente contigo. Daí, me desespero e quero prensar todos os momentos em um só.

— Isso é impossível até aqui, embora você conseguiu fazer isso com um céu inteiro. E ainda com formas e cores! Você precisa valorizar-se mais.

— É, acho que sim... — concordou o menino. E ficaram calados durante um bom tempo...

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A DESPEDIDA

— Todo esse papo não me deixou elogiar seus cabelos. Eles estão lindos...e..e..grandes! — o menino falou, agora sentado no mesmo banco, ao lado da mulher, com as mãos juntas e os dedos entrelaçados, como se ele fizesse uma forte prece em silencio.

— Por você se preocupar, é o que fez tornar real. Algumas coisas são só medos que não são ruins. Mas quando tornam-se amargos, percebemos tarde demais. Dói mais e ficam difíceis de ser superados. O medo pode construir barreiras impenetráveis... Você criou isso bem antes do fim, está com medo disso estar sendo vivido agora, pensando no que pode ser escrito mais adiante. Desse jeito você vai ficar enlouquecer.

— Você não falava essas coisas, falava?— O menino pergunta, confuso, para a mulher.

— Talvez todo esse nosso diálogo já foi modificado. Mas se agirmos normalmente, contornaremos a situação. Ah, obrigado pelo elogio dos meus cabelos....

— Acredito que essa é a hora de eu comentar sobre essa mala do seu lado — o moleque joga uma rápida olhada para a mala de viagem bege, com alguns selos em seu canto superior, que se encontrava do lado da mulher, no chão. —  Você vai mesmo,então?

— Sim. Parece que sim. Mas você sabe que sim. Você mesmo criou também essa mala...

— Criei, mas meu poder se limita ao externo dela. Criei pra você, mas não sei o que tem dentro dela...

— Se tiver um carneirinho, então é bom que tenhas furo nela. Senão vai matar o bicho sufocado, tadinho! — disse a mulher, brincando.

Agora sim ,ela havia mostrado um sorriso verdadeiro. Era dela aquele sorriso feito por comentários ingênuos e humildes. Acho que ela quis fazer o menino sorrir um pouco. Conseguiu tirar dele um esboço. Mas sua cabeça não parava de criar frases e, olhando para mulher, desabafou:

— O carneirinho, morrer? Acho que aqui, nesta estação, não tem como. Mesmo porque voc...

— Eu to brincando! — A moça respondeu ligeiramente impaciente. Depois, vendo que o menino caiu em uma silenciosa tristeza, pediu — Não fica assim...

— É fácil falar.

— Eu sei que não é fácil. Mas você já passou por tanta coisa. Você é forte e esforçado; você vai cons...

— Para, mãe! Não sou nada disso.

— Outra pessoa não criaria essa realidade....

— Quando constrói um lugar com a sensação de que uma pessoa já faz parte dele como o ar, fica mais fácil...

— Você vai contar pra eles depois?

— Sobre?

— Isso que você fez pra mim...

— Mais tarde, talvez. Tem um monte de jeitos de me expressar, sem precisar mencionar isso por enquanto. Sem querer me gabar, criei tudo isso na mais profunda melancolia, em um momento só meu. Eu precisava me preparar...

— Você sofre por antecipação. Tem de parar com isso...

— Ah, eu tenho de tomar cuidado, né? Não to te culpando. Mas você faz ideia o quanto vai modificar outras realidades do qual eu administro...?

— Agora eu sei.

— Então sabe também que, a minha realidade, será a mais atingida com tudo isso, né?

—....Tsc...

— Vamos parar de falar deste detalhe. Eu já disse, não to te culpando. Não to nem preocupado com isso.

Um novo silêncio paira na conversa de ambos...

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— Como você acha que é lá?

— Sei lá, não sei... Mas agora falta pouco pra eu descobrir a verdade. —  Passou uma brisa leve, que balançou os cabelos dela e mato em volta.

— Não sei te dizer se estou sentindo um pouco de inveja, ou ciúmes, ou saudades. Não há felicidade em ter de encarar o que está acontecendo, mas, puxa! Em breve vai saber daquilo que muita gente cobiça saber. Tem gente que daria a vida pra saber disso, ha, ha, ha.

Forçou mesmo a risada. A piada fazia parte, perfeitamente para a ocasião como uma luva do tamanho ideal para a mão. Mas ele não conseguiu se auto-animar.

— Humph —  resmungou a mulher. Depois sorriu.

O menino ficou brevemente calado. Passou a apertar as mãos com os dedos entrelaçados ainda mais forte:

—  Será que você poderá voltar pra me contar como é lá?

—  Não sei. Talvez....

—  Dizem que estes trilhos não atua para trens que fazem o caminho contrário. E acho que isso eu não posso mudar.

—  Foi o que eu disse: algumas coisas não podemos e nem devemos controlar...

—  Lembro agora de um texto em que escrevi, e temia por esse dia. Que também eu sempre fui curioso em saber como é fazer essa viagem, onde ela nos deixa, onde vai parar. E que eu queria fazer isso, em seu lugar.

— Eu também não sei como vai ser.

—  O sonho de quem fica na estação é, um dia, a pessoa do qual ela se despede venha um dia contar algumas novidades. quem fica, fica esperando...

—  Mas daí você não vive tranquilo, né? —  retrucou a moça. —  Vai deixar de viver em função desta espera? Isso é desperdício de vida. Você é novo, tem muita coisa para viver pela frente. Você tem ela. Você tem seus amigos...

—  Eu sei. Mas to diante da sua viagem. E quem se despede, nunca está preparado...

—  Caramba! fez tudo isso e não se sente preparado...?

O menino ficou envergonhado. Corou rapidamente as bochechas:

— Agora você conhece todos os meus segredos, inclusive como funciona este.

— Deixa de ser bobo —  disse a mulher. Em seguida, lembrou de algo que queria ter dito antes —  Você queria  que, no lugar do trem, viesse um avião?

— Com nome, numeração e tudo. Mas acho o trem mais poético, embora bem estereotipado dentro da minha mente que vive em coletivo.

Calou-se de novo.

A verdade é que o menino não sabia o que falar, diante de tão pouco tempo. Diante de tanto poder, e pouca capacidade em administrar. Se deixasse sua mente se distrair, cenas de um transito em sua cidade, numa quarta feira a noite, o tiraria alguns segundos da estação. Luzes de lanternas de carro, rumando para a zona sul da cidade, e seu corpo largado e balançando dentro no ônibus, e a dor, aquela dor no peito de ser convocado a enfrentar, mais uma vez de pé, uma realidade que ele detestava. A voz da mulher é que trazia ele de volta, e parecia que ela sabia muito bem disso:

— Você encontra diversão até nestes momentos. Você é muito forte. Estou orgulhosa disso.

Esperou que um novo diálogo viesse a mente. Depois continuou:

—  E seus amigos? como estão?

— Estão bem...Acompanhando tudo. Me dando forças.

— Eles são bonzinhos, né? Gosto muito deles...

— Eu também... — O menino fechou a cara, e manteve os olhos voltados para o chão da estação.

—  Eles vão cuidar bem de você, fica tranquilo —  sugeriu a moça.

—  Não é a mesma coisa —  o menino entortou a boca e logo em seguida, fiz bico.

A mulher suspirou, expressando uma certa chateação. Não pela situação, mas pelo seu filho ficar daquele jeito. Não conseguir desenvolver um raciocínio que aceitasse mais do que tentava.
Mas ela sabia que ele estava se esforçando por demais. Era como se não tivesse mãos para segurar tamanha complexidade de um objeto nunca antes visto, onde suas formas, peso, volume, extrapolariam qualquer realidade conhecida. E parecia que isso a deixava ainda mais orgulhosa.

O momento que nunca deveria chegar, chegou. Ele veio de longe, ecoando na direção que o menino havia olhado, antes de subir as escadas da estação. Um medo sem tamanho tomou o coração do menino, que levantou do banco em um sobressalto. Olhou na direção do barulho e via a fumaça atrás dos últimos morros. O trem estava chegando...

O menino voltou a cabeça rapidamente para a mãe, como se tivesse visto um monstro se aproximar. Sua expressão de susto para desespero e choro foi em um piscar de olhos. E isso pareceu ,de verdade, afetar sua mãe. Ao mesmo tempo, abriu profundas rachaduras por todo o cenário. A mulher, com uma certa preocupação, acelerou suas palavras:

— Calma! olhe pra mim! Não olhe pra trás! Se você se desconcentrar, vai arruinar tudo isso que você fez pra mim. Tudo isso vai desmoronar! Não chore!

—  Não...consigo... Tá muito difícil!...

Quanto mais o menino fazia força para se concentrar, mais rachaduras aparecia por todo o local. As lascas já subiam para o infinito, outras, simplesmente desapareciam no ar. A mulher já tinha levantando do banco e, para garantir que o menino não olharia para o trem chegando, colocou as suas mãos no rosto dele e disse:

—  Calma! Calma! Olha pra mim...isso! continue olhando pra mim. Se acalme..se acalme...Já passou..já passou....

O menino abaixou a cabeça, e encostou o topo desta no peito da mãe. A medida que ia se acalmando, as rachaduras iam se auto cicatrizando, reconstituindo todo o cenário. Fechou os olhos e comprimiu-os. Mas o trem chegava, lento...

—  Acho que consigo só mais um pouco... —  o menino levantou a cabeça e disse isso, olhando pra ela. Com os olhos vermelhos, tomando imenso cuidado pra não deixar escorrer uma só lágrima até o chão.

—  Consegue sim. Você é forte. No fim das contas, só você faria isso. Só você poderia criar e estar aqui. Só você...

—  Obrigado pelas palavras, mãe. Eu..eu...

Tudo de repente, retomou a paz original. O trem estacionou. Sem sofrimentos, sem dramas, sem hesitações. Tudo estava normal. E precisava prosseguir.Continuar. Fosse o que fosse.

A mulher pegou a mala, e a porta do trem abriu. Ela colocou a mão na barra de apoio e repousou um pé em cima do degrau do trem. Olhou para ele.

— Tsc...preciso ir... A gente ainda vai se ver. Mas não será mais como antes...

—  Eu acho que eu sei disso —  e abaixou a cabeça.

—  Não fica triste. Olha, se te consola, só ter tido toda aquela conversa, logo de começo, não significa que estamos sendo manipulados em uma mentira. Significa que, quem já nos escreve, em um futuro que você ainda não está, está tomando um imenso cuidado com esse nosso diálogo. Pode ficar tranquilo...

O menino parou um tempo pra entender esse trecho. Depois:

—  Antes, posso te pedir algumas coisas? —  O menino perguntou, também afim de se concentrar para não destruir tudo ao redor

— Fala.

—Avisa pra quem está por trás de toda essa sua viagem que, quando eu puder, eu vou tirar satisfações pessoalmente.

— Se eu puder, falarei...

—  Ah, e mais uma coisa. Er... quando for eu sentado neste banco, você vem me buscar?

—  Talvez. Talvez...

— Obrigado.

—  Até breve.

— Até mais, mãe. Boa viagem.

Entrou no trem. Este automaticamente fechou a porta. Anunciou sua partida soltando fumaça. Lentamente saiu da estação.
O menino ficou ali, parado, esperando o trem sumir no horizonte. Mas o veículo nem chegou até ele. Os trilhos soltaram-se do chão e fizeram uma curva pra cima, subindo até aquela magnifica pintura estelar. A curva era suave e o trem subiu calmamente. Quando todos os vagões encontravam-se na vertical, o trem movimentou-se mais rápido e, na velocidade da luz, emitiu uma branca e radiante, virando apenas um risco no céu, que rasgou e explodiu em estrelas.

O menino quis sorrir pelo fim de tamanha dor escondida nos detalhes que os trouxe até ali, e que batia em seu peito no momento. Conseguiu, por alguns instantes, esboçar um sorriso orgulhoso de quem foi ela, de fato.
No entanto, não demorou muito para que tudo começasse lentamente a rachar.
O céu era a coisa mais linda quando escorreu ininterruptamente as lágrimas quentes e em grande quantidade, descendo pelo rosto dele, enquanto olhava  para cima.
Uma das lágrimas escapou do contorno do rosto e despencou até o chão. Ao Toca-lo, trouxe em seu epicentro infinitas rachaduras...

...E no quarto do hospital, após uma semana, houve-se barulhos de vidros estilhaçando contra o chão. Caíram todos que faziam parte do cenário colorido e ao chegar ao chão, resumia-se a apenas vidro, frios e sem cor, como as do quarto.

Ali, houve o cessar de uma respiração. Fechou-se as cortinas. Tudo ficou imóvel, exceto a coragem de quem deveria presenciar, e seguir adiante a história.

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Gostaria de dizer que esta história continuou firme e forte.
Mas agora não posso...
Neste exato momento, faço parte da Compressão do Tempo de quem ainda vai escreve-la...












quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Short Novel - Heróis de Areia ~ Capítulo 18: Teimosia



Capítulo 18: TEIMOSIA


A visão aérea, ora desfocada, ora não, apresenta uma parte do deserto totalmente devastada. Apenas um Hunter era capaz de realizar tamanho estrago. Era membro do Deep Sea, embora o líder deste grupo não tivesse mais tanta certeza da existência deste, tampouco se ainda era líder de algo.
O corpo em primeiro plano, que desfocava o cenário atrás para quem observa, caia lentamente, de muito alto: isento de movimentos que o pudessem salvar de despencar de cabeça para baixo. Os tímpanos deste corpo não ouvia o vento, nem a explosão de pétalas que sucedera antes de forçar a vira-lo no ar. Era um zumbido que trazia um silêncio enlouquecedor.
De repente, ouviu-se timbres, explosões, atritos, pequenos gemidos e algumas falas de semanas atrás. Obra das memórias...
Morros sendo despedaçados. Dunas de areia perdendo seu formato. Impacto de ataques e defesas entre tiros, chutes e armas.
Muitas cenas passavam. E, a cada mudança, fazia com um barulho na mente de Cordas que  só ele podia ouvir.
Florença chegou primeiro ao chão. Enquanto seu cabelo esvoaçava pela sua aterrissagem firme, tudo parecia ter ficado extremamente lento. Quatrocordas despencava à lentidão descomunal de seu raciocínio. Aos poucos, as duas armas brancas foram deslizando da suas mãos, soltando-se pacientemente delas: maça-estrela e machado.
Com o corpo levemente curvado para trás, Cordas sente suas memórias passarem como um manto por seus olhos que já estão começando a ficar cegos.
 Antes de entrar em contato com o chão, uma lembrança específica, de muito tempo atrás, o isenta da dor final contra a areia...

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 Cordas, como se sente?

 ...Ainda sob o efeito... Normal. Levará tempo para eu  me curar completamente.

 Lightning era tão poderosa assim?

O silêncio deu a resposta de Cordas para a pergunta idiota que Gipsy acabara de fazer. A Lullaby havia,na ocasião, achado uma microscópica brecha naquela muralha incompleta, fazendo mais uma vítima, durante um período, na face do deserto.
Agora era tudo questão de tempo. E tudo normalizaria...

 Você... hm... precisa se distrair... Vamos lá, hoje a noite comemoraremos a vitória de um grupo de  Hunters sobre uma horda de Lullabys! Será no velho acampamento escondido TwoCanons.- Convidou Gipsy.

Tudo bem. Irei.Aceita Cordas.

— Agora, vamos conversar sério! Cordas, eu estou preocupado com você, amigo!...

— Já te falei, Gipsy, só preciso de tempo para...

— ...Eu me refiro a usar armas de fogo, Cord...

—  E também já disse que não tenho paciência com essas merdas! — Disse Cordas num sobressalto, levantando uma das mãos sobre a cabeça, com a palma para frente, impaciente.

—  Cordas, é para o seu próprio bem. — Argumenta Gipsy com cautela.

—  Adoraria dar uns pipocos em você, pra te provar que eu sou bom em miras, alvos e luta à distância, mas vou errar todos os tiros!...

— Idiota! Podemos começar com umas miras mais fáceis: latas em cima de cactus e cercas. Mas, primeiramente, teremos de ir até um conhecido meu que vende todos os tipos de armas de fogo contra Lullabys. Escolha as que mais te agradar e treinaremos um pouco. Não custa...

— Tá, Tá! Vamos buscar essas porcarias pra eu errar os disparos e acertar os corvos no céu! — Cordas levanta de súbito da cadeira no antigo quartel general dos Hunters, muito antes da origem do Deep Sea surgir.

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— Muito bem, Cordas. Ali estão as latas em cima das cercas e dos cactus. Ninguém vai nos incomodar aqui nos fundos do barraco. Treine os tiros.

"Lembro-me que Gipsy tentava, com sua maldita teimosia, ensinar-me a atirar. Nunca gostei muito de armas de fogo ou armas brancas. Sempre curti usar os punhos e tretar a noite toda. Mas meus punhos pesados eram apenas eficientes em brigas de bar; apenas contra Hunters folgados que precisavam situarem em sua miserável existência ao invés de importunar os outros com maluquices. Contra as Lullabys, era praticamente impossível: jamais eram acertadas! Desviavam como se fossem peixes ariscos embaixo d´água. Acho que o ar em volta delas carregava a explicação dessa facilidade...
Entretanto, o Machado foi amor à primeira vista. Percebi que gostava de lutar próximo ao perigo. Tinha mais controle da luta mantendo o inimigo perto de mim do que atirando à distancia. Não sei, as armas de fogo podem ser grandes ou pequenas, tanto faz: não gostam de mim, acho. Me expulsam, todas juntas, para longe. Longe de seus pequenos gatilhos, longe de meus dedos  e mãos enormes em comparação à eles."

Primeiro tiro - Gipsy: — "Não."

Segundo tiro - Gipsy: — "Não."

Terceiro tiro - Gipsy: — "Não...Hey! Cuidado comigo, Cordas! Quase me matou!!!"

— "Deixa de ser dramático. Esses tiros não fazem merda nenhuma em Hunters!"

Quarto tiro - Gipsy: — " ...Tô achando que você quer me acertar de propósito..."

Quinto tiro * Corvejar de um corvo acertado ao longe* - Gipsy: — "..."

Sexto, sétimo, décimo terceiro, vigésimo sétimo, quinquagésimo nono tiro - Gipsy: — "...Er...não..."

— Chega! Tó essa merda! Não levo jeito pra isso!

—  Cordas, volta aqui!...

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—  Só se liga nesta belezura, Cordas!

—  Pfff... Não acredito que você está levando esta....gerigonça pra comemoração. Eu não vou praticar essa droga lá!!!

—  Olha, a gente nunca sabe. Mas eu peguei com um conhecido meu, agora, a caminho da festa. Não dá pra voltar agora e devolver, estamos atrasados.

—  Ah, vá! Então joga essa porra ai no chão e vamos! Tsc, te conheço, humph!
Mas...mas essa coisa tem quatro gatilhos??? Isso é uma aberração!!!!!!!!!!!

—  Sim, é um gatilho em cima do outro! Bem, não sei... Quem sabe eles não respondam melhor na sua mão...Você sabe, cada dedo em cada gatilh...

— Como você é teimoso, Gipsy! NÃO-VOU-USAR-ESSA-MERDA!

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— Meu, demais esse lugar, Gipsy!

— Sim, esses gigantescos canhões antigos roubam a cena do lugar: cruzados e imponentes...

—  Você consegue imaginar de que época eles poderiam ser?

—  Não faço ideia. Eles e todas essas estruturas antigas escondem histórias tão antigas que nem podemos imaginar. Com essas luzes então, eles se tornam espetaculares! As vezes, Cordas, me perco em pensamentos... Sobre as luzes e sobre o que aconteceu bem antes de nós...

— Xiiii.... já vai filosofar com duas garrafas de Sand Beer? Você já foi mais forte, Gipsy; a festa ainda nem começou. Esta noite os Hunters estão animados. E hoje quero ficar louco! Espero que me acompanhe!

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Voz na multidão: — "Luuuuullaaaaabyyys!!!!!"

— Cadê o Gipsy...? Hic! Putamerda! Bebi demais! São muitas! E os Hunters não param de se movimentar! Deste jeito não consigo localiza-lo!

*Buuummm!*

— Noss...Hic! Nossa! Essa foi por pouco! Gipsy! GIPSY!! Cadê você? Malditas Lullabys! Nos surpreendendo pelos céus! Desgraçadas!!!

*Rátáááááááááááááááááááááá...*

*Cabuuummmm*

Daqui eu não consigo vê-lo nessa confusão toda! Mesmo sendo alto....Tsc! Vou ter de subir naquel...Hic!...Naquele palco para enxergar melhor!

"E foi o que eu fiz. Havia tantos Hunters naquele acampamento... As Lullabys chegaram sem prévio aviso: vieram aos montes, muitos pelo ar e outras por debaixo da terra. Mas era impossível nos achar aqui... Os homens já estavam bêbados o suficientes para facilitar ainda mais a vitória  das criaturas!
Quando subi no palco, Avistei Gipsy ao longe. Como sempre, ficava embriagado fácil, e pulava de cabeça num grupo de Lullabys. Sempre inconsequente. Teimoso. Um orgulho cego. Mas ali, naquele momento, não dava: não tinha como ele escapar! Estava cercado. Gipsy sorria de canto de boca, e era o próprio orgulho dele que o mantinha de pé. Entorpecido pelas bebidas variadas, não tinha a menor chance. Mas ainda sim sorria...
Eu via tudo girando. Algumas explosões próximas tentaram acordar-me da própria embriaguez, mas a força com a qual eu usava para as criaturas perto de mim com meu machado encharcado de Egocon faltava-me oxigênio, deixando-me ainda mais bêbado.
Gipsy acertaria uma ou duas. Daquela distância, eu também, porém apenas uma com meu machado. Outra, talvez, com a maça. Porra, depois disso como eu me defenderia? Minhas armas não voltam magicamente para às minhas mãos...
No meio da embriaguez, refleti porque desejei tornar-me forte. cresci com uma força descomunal. Resistência fui ganhando conforme escalava as inúmeras arvores da minha Garden. Ganhei também principalmente com as Quedas. Gostaria que Gipsy entendesse isso... E agora?
De longe, daqui, vi de relance o cigarro acesso no sorriso dele. Poxa, ele está mesmo bêbado!...
Joguei minha atenção para o lado, como se alguém estivesse próximo à mim; foi apenas impressão. Entretanto, vi, encostada e girando, no canto do palco, aquela coisa que Gipsy trouxe. Tudo girava ainda mais.
Lembro-me de instintivamente guardar a Morning Star enquanto o pandemônio bailava, girando até o céu para a sua dança com teor alcoólico. Apanhei aquela arma que Gipsy trouxe e amarrei alguns fios de aço que estavam no chão...e..."

Uma chuva de Lullabys despencavam dos céus, silenciadas; Aquelas que estavam cercando Gipsy, tombaram antes mesmo do mesmo atirar. Este levantou uma sobrancelha e fez bico, não compreendendo o pouco que ainda conseguia. O cigarro até apontou para baixo.
Ele olhou para o lado e viu o show vindo do palco. Cordas estava lá, com algo extremamente grande nas mãos. Seu machado estava com o seu cabo voltado para frente, apontado para as Lullabys do qual mirava. Na ponta do cabo, estava presa por alguns fios a arma que Gipsy trouxe para a festa. E quatro fios de aço estavam ligado a cada gatilho da geringonça, presos à lamina do machado na outra extremidade. A cada puxada nos fios, um gatilho disparava, de forma certeira, as Lullabys. Aquele era o momento de Quatrocordas: O Céu & O Inferno era dele!
Os olhos de Gipsy encheram-se! Este foi correndo até o palco, cambaleante, bêbado, dando às costas pro perigo. Cordas, de cima, viu Gipsy aproximando-se e entreolharam-se sorrindo. O Hunter de chapéu preto virou-se novamente para a área de batalha e, antes de disparar seus tiros junto com Cordas, contemplou as Lullabys caindo pelo Hunter que as acertava em cima do palco. O Hunter alto fazia seu show na parte superior e Gipsy limpava a platéia de Lullabys que aproximava-se velozmente.
De súbito, Gipsy parou de atirar. Girou e guardou a arma no coldre. Ainda sobrara umas cinco, que vieram voando perto do chão. Sem se virar para Cordas, que empunhava seu machado como um instrumento de música, disse:

— Cordas, essas eu vou deixar passar. Só pra você!...

— Tsc, como quiser!

Elas ignoravam o Hunter bêbado que estava em pé, no chão e voaram em direção ao grande caçador. Os tiros que alvejavam os alvos e explodiam em luzes verdes por culpa do Egocon, garantia um show de efeitos especiais. Gipsy ainda permanecia de costas para o amigo. Abriu os braços e sorriu, diabolicamente. Seu chapéu conferia-lhe uma fantasmagórica sombra em todo o seu rosto, deixando em evidencia apenas o sorriso e o cigarro. O efeito dos tiros em cima do palco lançava rajadas de ventos e pequenas explosões, balançando toda a sua roupa e cintos. Por fim, sussurrou:

— ...Porque o show deve continuar!

Quando cessaram os disparos, Gipsy virou-se e subiu no palco. Não acreditara no que vira:

— Cordas! Você usou a arma de fogo que eu lhe trouxe! Você foi....simplesmente espetacular! Prendeu junto ao seu machado...

O grande Hunter esboçou um pequeno sorriso para o amigo, mas logo em seguida exibiu uma pequena raiva e, com a mão esquerda, desprendeu a arma no machado, quebrando-as em pedaços com o puxão que deu e estourando os fios, deixando o machado livre daquele ´parasita´. Gipsy assustou-se:

— Ma...mas o que você está fazendo? Enlouqueceu?

—  Não leva a mal não, mas descobri que assim fica muito fácil. Perdeu a graça! —  Cordas abriu um grande sorriso.

— Cordas, você é... muito teimoso! — divertiu-se Gipsy.

—  Agora, me arruma um cigarro aí, Gipsy, porque eu tô muito louco!

****************************************************

O céu, pintado de estrelas, carregava um Azul Royal em harmonioso degradê até o tom mais escuro, sem uma lua nesta noite. Fumaça. Destroços. Silêncio, não fosse pilhas e pilhas de objetos pegando fogo ou aparelhos quebrados piscando com muito custo com suas luzes de Egocon. Sem isso, daria apenas para ouvir o sutil estalar do cigarro dos dois únicos Hunters sobreviventes, em cima do palco. Curtiam, vagarosamente e com muito prazer, seu respectivo fumo. Ao final, Cordas sussurrou:

—  Gipsy...

— Sim...? — Gipsy volta para o amigo.

Uma luz pálida e fria perpassa do ombro direito ao rim esquerdo de Gipsy, abrindo um enorme talha no tórax.
Escuta-se claramente a pele sendo dividida e o sangue agitado em sair pela extrema fenda. O machado para seu caminho ao passar verticalmente no corpo de Gipsy, já molhado de sangue. Respingos pintam a cara e a roupa de Cordas, que mantém uma expressão severa e assustadora. O Hunter de chapéu preto deixa sua bituca cair da boca ao tentar pronunciar:

— C-Cordas...por...que...f-fez... is-isso?

Caiu no chão, espatifando as costas, praticamente morto.

— Nada pessoal, Gipsy, mas aqui, somos inimigos!...


                                                                                                Fim da Segunda Temporada.





quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Short Novel- Heróis de Areia ~ Capítulo 17: Alpha & Ômega



Capítulo 17: ALPHA & ÔMEGA



 Uma névoa espessa e nociva espalhava ao redor, por toda a paisagem. Para aquelas vidas que moram na vastidão daquele lugar, era tão claro quanto a rara água que uma tempestade realmente se aproximava. Isso fazia com que o cigarro de Gipsy, em seus momentos finais, despedia-se daquela boca, cercada por uma barba-por-fazer, áspera, cinza e grossa. O Hunter já exibiu jovialidade e aparência melhores.
A brasa desliza para o seu fim; transforma o cigarro em uma bituca. Sem tirar os olhos da  Lullaby, Gipsy cospe para o lado o filtro do seu fumo, inclinando a cabeça um pouco para a direita. Acabara de lembrar que havia sido estúpido em ter parado de fumar no passado, e silenciosamente deliciava-se na paz que aquele abençoado cigarro lhe promovia. O prazer em doses homeopáticas do abraço da Morte.
O Hunter volta o rosto completo para a criatura. Um longo tempo se estende entre os dois. A Lullaby tira seu grande rifle, que apoiara no ombro, e encostas a coronha no chão. Sua arma é quase do tamanho dela. Como uma boa Sniper, ela apresenta suas dimensões de forma bela e comprida. Os seus respectivos detalhes a torna ainda mais peculiar e temerosa, embora esse rifle transpareça uma visão sutil dele mesmo.
O homem começou:

— Oi...

— ...Er...oi...

Uma dúvida começou a crescer na mente da Lullaby. Primeiro, todo Hunter que se preze sabe que aquela área onde os dois se encontravam servia de esconderijos para as Lullabys viajantes. Segundo, a instabilidade do tempo dava ainda mais vantagens para elas; um caçador sozinho simplesmente se expondo neste lugar era um suicídio. Terceiro,  a situação  tornava-se ainda mais absurda sabendo que aquela insígnia no chapéu lhe garantia o nível de Alone Howl , o que ficava claro que aquele homem não chegou até alí por falta de experiência ou ignorância heróica.  Quarto, e talvez o mais estranho: a polida e verdadeira educação do Hunter em cumprimentá-la. Onde estaria a chuva de tiros? A violência nos ataques? Os gritos, as ofensas, as ameaças e obsessão de tomar o Egocon?
Bem, tudo isso poderia ser um truque. Mas aquela aparência, e o ar em volta de Gipsy, sempre instigou a curiosidade das Lullabys. Para algumas, é uma armadilha fatal. Para ele, foi um dos motivos de ter tantas cicatrizes pelo corpo, por toda a sua costas... Incluindo aquela que cisma aparecer por baixo da camisa de gola aberta...
Na cabeça dela, esses fatos não encaixavam entre si. Por isso, fechou um pouco a expressão do rosto e tentou mudar o tom de voz, após ficar desconcertada por cumprimentar o Hunter.

— Escuta aqui, caso não tenha percebido, essa área é minha e por essas bandas está cheia de criatura como eu. Se eu fosse você, eu...

— Eu sei disso. Sei também que vocês respeitam um código entre si e me derrubariam em conjunto caso isso fosse combinado previamente entre vocês. E sei que você está sozinha...

— ...

Um novo silêncio se instala novamente na voz dela. Percebe que ele sutilmente a observa, mas tem algo a mais naqueles olhos. Impossível, no momento, descobrir algo por estarem semi-cerrados. Deixa escapar um cansaço de décadas sem dormir direito.

— Pelo tamanho da arma, tipo e aparência singular, você é a Lullaby do qual me relataram - Argumenta Gipsy, sem mudar sua nítida neutralidade enquanto conversa com ela.

Isso era raro no Hunter: sempre estava com os pensamentos a mil por hora, focado em mais de três coisas ao mesmo tempo e desfocado em todas elas.
 Nunca estava em paz. Sempre em movimento, sempre em ação. Sempre em guerra...
Puxou do bolso o maço de cigarros. Não estava tão amassado quanto a regra dos esterótipo manda. Acendeu o cigarro e deixou de canto de boca. Deu umas tragadas, e guardou novamente a caixa no bolso.
A Lullaby abriu um sorriso sem graça, e fechou logo em seguida:

— Ah, claro! Logo vi o seu real propósito. Não poderia ser outro.

— Ao que me consta, estamos em guerra desde a nossa existência - Disse o homem, com a expressão calma, colocando cápsulas de Egocon na arma  como se fossem munições para derrubar um elefante.

Falou tudo isso sem dirigir o olhar para ela. Seu cigarro queimava rápido pelas rajadas fortes de vento e pelas tragadas constantes do seu usuário.

— Quantos anos você tem? - Gipsy pergunta, agora fitando a Lullaby.

É do seu feitio, misterioso Hunter,  a perguntar  a idade das Lullabys  que abate?

— Sim, eu tenho essa mania. Eu sigo um tipo de pensamento...

— Vai dizer que isso tem a ver com nossos níveis...?

— Hm... mais ou menos isso...

— Eu tenho 185 anos...

— ...

O Hunter abaixou a cabeça novamente. Gira a arma e coloca no coldre de seus intermináveis cintos que se cruzam.

—Tsc, tsc... - suspira o homem - E o seu nome?

— Você parece desapontado... Meu nome é Iuvenis. Perguntar o nome também faz parte?

— Não, o nome geralmente não me importa...

"Que Hunter mais estranho", pensou Iuvenis.  De súbito, tirou seu rifle apoiado no chão e colocou Gipsy em sua mira; começou a falar desenfreadamente:

— O que você veio fazer aqui? Aliás, qual é o seu problema? Eu estou aqui, no meu posto. Nunca te vi mais gordo. Ultimamente, não venho caçando ninguém da sua raça. Eu mal cruzo o caminho de vocês. Por que vem me perturbar?

— Podemos começar com a interferência que a raça de vocês causam na Ressonância...

— Homem! Se der mais um passo, eu juro que atiro!

— Acho que você está muito nervosa - Gipsy tira do bolso um tipo de doce em barra e mastiga cinicamente na frente da criatura.

— Eu acho que você está me subestimando - Iuvenis engatilha o rifle - Eu falo sério, Hunter. Vá embora e me deixe em paz!

"Essa luta não passará desta tarde - pensou o homem - Muito provavelmente eu vou me entediar e ir embora".

Agora, ele argumenta em voz alta:

— De fato, eu não sei o que eu vim fazer aqui, ao certo.

 A Lullaby  não tirou-o da mira. O Hunter assoprou a fumaça do cigarro para o alto. Com ele ainda na boca, abriu os braços e perguntou, sorrindo:

— Então, quem vai começar?

Só o vento ousava mexer os grãos de areia de forma brusca. Nenhum dos dois arriscou fazê-lo. Mas ficar fora de riscos por muito tempo nunca foi o forte de Gipsy:

— Eu começo! - disse o homem, em uma velocidade juntamente com seu corpo mirando a arma na Lullaby, que foi difícil distinguir se a frase saiu primeiro do que o saque da Rudder. Gipsy nunca precisou se esforçar tanto para ter uma boa mira. Quanto à escolha do alvo, isso sempre foi muito questionável...

" Bang!" - O eco assustador do disparo do rifle foi levado as direções diversas daquele inicio de tempestade arenosa. O chapéu de Gipsy caiu. Mas ele sumiu diante dos olhos de Iuvenis sem deixar vestígios:

- Eu... o acertei...?

*********************************************************

Em algum canto daquela área árida sem começo nem fim, à semanas um Hunter específico luta pela sua sobrevivência. Passou as horas, de todos os seus dias, escondendo e sendo achado por Florença, que não desiste do seu grande alvo.

À dias que ataques são trocados.

À dias que Cordas está cada vez mais fraco.

À dias que a Lullaby está levando a melhor.

Florença estava sim, bem ferida, e vez ou outra colocava a mão contra o peito, como se tivesse sido fatalmente atingida. No entanto, estava de pé, com muitos machucados e hematomas; suja de areia.Firme. Implacável.
Cordas, por outro lado, embora estivesse também de pé,  encontrava-se muito mais ferido que Florença. E isto era sem dúvida, o mais trágico nesta cena. Como um Hunter poderia permanecer naquele estado e ainda conseguir lutar?
Ele é apenas um homem. Um ser comum. A raça superior é, sem dúvida, as Lullabys. Isso é constatado desde os primórdios, e ao analisar lutas  como esta. Passou-se semanas e Florença  nem parece que está cansada. Aparentemente Cordas também, mas isso é só uma doce ilusão. Outro Hunter, nesta situação, já teria entregado os pontos! Teria mostrado dor, teria exposto extrema fadiga e teria se entregado novamente. É a tal famosa Recaída  que os Hunters mencionam toda vez que um deles cai na armadilhas de sua algoz.
Quatrocordas, aguentando tudo naquele estado, sem choramingar de dor, é a situação mais triste, porém heroica: Hunters são seres comuns, porém formidáveis. Hunters como Cordas, então,  são além desses elogios.
Todavia...

— Lamentável, Cordas. Admirável e lamentável!

— ...

Florença enaltecia a resistência sobrenatural que o homem exibia. O que ela não queria admitir para si mesma era o fato de não conseguir compreender como hematomas tão escuros, sangue escorrendo  pelas têmporas e cabeça, arranhões sérios e profundos e todos eles  não  forçavam o rival a pronunciar um "ai". Isso tudo, em contrapartida, criava um paradoxo para ela:  era por esses motivos que Florença era tão obsecada por ele.
O silêncio estava de forma homogênea do lado de fora de Cordas. Por dentro, vários nomes e um crescente caos tomava conta de seus pensamentos. Como um exímio observador, conhecia seus amigos, sobretudo Gipsy. Até onde ele mesmo teve seu ultimo contato com o
líder do Deep Sea, sabia como Gipsy estava atualmente.
A vontade de encontrar Gipsy e a frustração aumentava a cada golpe ou tentativa falha de escapar dos ataques de Florença . Todavia, deixar de pensar no amigo era quase impossível. O Hunter de chapéu preto tinha uma áurea misteriosa que atraía pessoas para perto dele, fosse pelos seus defeitos ou qualidades. Isto, a resistência de Quatrocordas não co seguia ir contra. E talvez nem quisesse. Mas pelo amor que sentia pelo amigo, precisava sair dali vivo só para oferecer-lhe a chance de mudar seus pensamentos e pontos de vista diante de uma nova verdade, ainda desconhecida por Gipsy. E, bem, nesta batalha, o amor próprio de Cordas também contava.
O nome de Glasses também ecoava em sua mente. Era outro que precisava rever os conceitos e quem sabe mudar sua realidade perante as Lullabys. E Vanitas...Ah! Estava tão presente a voz deste! Ouvia a voz do colega toda vez que espatifava no chão pelo ataque de Florença:

"Creio que eu não terei tempo..."

Como se tudo isso não bastasse, ainda tinha de lidar com a contagem das três semanas restantes. Seu tempo estava esgotando. E a qualquer momento, enquanto sua mente aos poucos se perdia na febre, Florença podia se transformar no pior pesadelo de um Hunter, e na morte personificado de Cordas.

Foi inevitável. Seus devaneios lhe trouxe um formigamento em meio de tantos flashbacks. Essa dormência, qualquer Hunter uma vez atingido, conhecia muito bem.

Cordas percebeu tarde demais.

Cordas foi atingido no coração...

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Short Novel - Heróis de Areia ~ Capítulo 16: Surrounded (Reprise)

Capítulo 16: SURROUNDED (REPRISE)

O vento soprava do lado oeste daquela região inóspita. O clima dizia que em breve, uma tempestade de areia passaria pelo local, transformando a paisagem num inferno de grãos que cega e derruba qualquer aventureiro inexperiente. É o "Labirinto-Camaleão", conhecido pelos poucos sobreviventes nativos daquele local.
O pulmão precisa ser forte o suficiente para manter o cigarro acesso neste vento. Ele relaxa. É reconfortante. E, a cada tragada, horas a menos de vida são acumuladas na infame lista da Dona Morte.
Não faz diferença: quem fuma vive uma vida sem a certeza da volta; sabe apenas da ida.

Suas luvas de lã e trapo, assim como sua roupa de couro que mistura jaquetas, acessórios indistintos de pano, cintos com rebites lhe servindo como apoio para suas armas, lhe fazem uma forma sólida, caminhando seguro de si, quase uma sombra, não fosse pela camisa branca que usa por debaixo de tudo isso. Sua gola está aberta e levantada; o "V" que forma em seu peitoral, devido aos botões abertos, deixa seu físico exposto...
Olhos semi-cerrados, visualizando sempre em frente e não se intimidando pela visão que cisma em engana-lo pela areia que toma o ar. Sua jornada leva tempo necessário para ele se convencer do que está fazendo, se é que precisa disso. Sequer dá pra imaginar o que ele pensa enquanto se dirige ao seu destino final.

Uma outra figura, bem à frente o observa de uma elevação de pedras, mirando diretamente no peito do homem. Vendo-o obstinado e não fazendo quaisquer menção de parar, ela mantém a mira de sua arma nele. Assemelha-se à um rifle, com detalhes que parecem não pertencer a esse mundo. Típico da raça que as usa.
Sua dúvida e curiosidade faz uma de suas sobrancelhas levantar e, sem entender bem  a sua reação, desiste da mira. Levanta a arma; sai de sua posição estratégica para abater o homem e caminha para trás da elevação de pedras.
Desce e se posiciona em frente ao seu forte de rochas, afim de barrar a passagem do moço. Este pára, lentamente, a 20 metros da figura que carrega o rifle na mão. O seu cigarro ainda garante algumas tragadas.

Frente à frente, eles se encaram. E o vento parece cercá-los, preparando-os para o combate que vai além do que os olhos podem presenciar.


quinta-feira, 24 de julho de 2014

Short Novel - Heróis de Areia - Capítulo 15: Proposta


Capítulo 15: PROPOSTA


Duas semanas depois 

As manhãs chegavam sempre da mesma forma. O Sol lançava sua luz tímida, e trazia consigo o anúncio das primeiras horas do dia. Embutido neste aviso, carregava consigo um efeito mágico, ao refletir um lindo brilho nas dunas do deserto. O ar fresco mantinha o ambiente ainda mais agradável e trazia uma silenciosa paz no coração daqueles homens que lutavam, dia após dia, pela existência de sua espécie. Esses primeiros minutos após a noite estrelada faziam muitos parar alguns instantes e sorrir, mesmo após uma batalha. E nem era pela vitória. Isso acontecia também na derrota. Eram momentos únicos. Todos os homens, em segredo, desejam ou esperam esses primeiros minutos do raiar do Sol. Aquecem seu coração. Mas é bem verdade que alguns preferem o brilho das estrelas e o silêncio da noite...
O brilho delicado entrava pelas janelas do Q.G. Deep Sea, sem pedir licença, porém era muito bem vinda. Entrava quieta, sem fazer barulho, como se, envergonhada, escondesse um sorriso de poder entrar sem ser impedida.
 Onde tocava, deixava os móveis e os objetos com uma aparência clara e serena, apesar de serem velhos. Ultimamente ficavam ainda mais bonitos quando essa luz repousava. O dono daquele local havia se empenhado na limpeza da poeira contida neles nos últimos tempos e evitava a todo custo que a depressão impregnasse nos cantos e nos detalhes. Nas primeiras horas da manhã, era uma mistura de luz e calmaria que banhava todos o espaço do barraco. Do outro cômodo, em uma cozinha improvisada, como sempre foi, ouvia-se o barulho de água. Gipsy sentia a chegada da manhã, enquanto mergulhava e esfregava as mãos numa bacia cheia. Jogou o líquido dentro da concha que fazia suas mãos, devagar e delicadamente no rosto, fechando os olhos. Permaneceu um tempo assim, e inclinou a cabeça pra cima, sentindo a manhã entrar pela sua casa. Tentou sorrir, mas o máximo que conseguiu foi suspirar.
Aborreceu-se. Tudo aquilo era mentira. Cedo ou tarde aquela sensação de paz dissiparia no ar, com a aparência branda que aquela luz fingia ser. Sua timidez revelar-se-ia na mais pura maldade acalorada. O toque sutil da luz e os móveis expostos à ela faria tudo que é madeira estalar, pedido para parar, na linguagem dela, quando está muito calor, ou quando há ausência deste. No passar de horas, tomaria a forma do Cavalo de Troia: em seu interior guarda a essência da temperatura do inferno. Os homens começariam a suar. Seus rostos ficariam com uma aparência mais rude e seus olhos, apertados com o brilho do Sol. Não haveria mais tanta paciência. E tudo ficaria mais difícil para enfrentar Lullabys em plena luz do dia.
De fato, eram raros os dias que o clima se mantinha estranhamente morno, com o passar de nuvens e um vento refrescante, como naquela ocasião em Match Tide Village, há algumas semanas atrás. Quando os dias tomavam essa forma, Hunters estranhavam a repentina mudança enquanto outros comemoravam com rodadas de Sand Beer ou Cactuarah estocadas em suas dispensas. Esses últimos diziam que o vento soprava à favor a vitória dos Homens contra as criaturas. Alguns até afirmavam de pés juntos que este ar era benéfico para a Ressonância.

No entanto, a algumas semanas atrás, este clima não foi comemorado pelos dois homens que permaneciam naquele vilarejo...

Gipsy despertou de um pensamento distante, iniciado pela raiva que sentia do calor que chegaria em breve. Ele precisava cuidar de alguém que jazia no leito do cômodo ao lado. Despertara por murmúrios do mesmo que se encontrava deitado na cama inconsciente:

— Nunca...nunca vi olhos mais belos como os seus... Eles me iluminam nesta... escuridão... expulsa-me da minha antiga vida sem sentido...e agora sirvo-te... de corpo e alma...sou único...para seus propósitos puros...

Gipsy notou, pelos murmúrios de Greenglasses, que a febre havia voltado. Hoje seria um dia de poemas infernais...

No entanto, o Hunter agradecia interiormente pelo processo que estava sendo nestes dias. As feridas de Glasses estavam em ótimo processo de cicatrização, e a febre alta que teve nos primeiros dias fazia com que Gipsy trocasse a água da bacia e torcesse o pano muitas vezes. Essa rotina já havia acabado, mas seu coma era profundo, seus delírios ainda mais e o estado febril parecia nunca querer abandona-lo. Todavia, estava mil vezes mais fácil cuidar dele agora.
Até o fim do quinto dia, Glasses levantava bruscamente da cama, apenas a parte o tronco, abria os olhos e proclamava brados trechos de proteção à Lullaby, fiel como um cachorrinho. Era evidente que, quando se observava os olhos, conseguia afirmar com certeza de que o Hunter não estava ali. Estava nas profundezas da ilusão. Desesperadamente sofrendo e gritando de lá, seu pedido de ajuda. Mas eles se transformavam no caminho e chegava à superfície como poemas de vínculo e fidelidade cega.

Gipsy levou a bacia com trapos limpos e colocou-a no chão ao lado da cama do amigo. Puxou o banquinho, sentou-se e mergulhou o pano na bacia. Em seguida torceu-o, e colocou na testa de Glasses, e este parou de murmurar. Voltou a respirar calmamente, no mais pacífico sono.
A ilusão levaria mais um tempo neste estágio, deixando-o apenas dormindo. Mas a preocupação de Gipsy seria quando ele acordasse: o que deveria ser feito.
Provavelmente, ele levantaria normalmente da cama, e quando tivesse uma crise, procuraria a Lullaby que o acertou para servi-la para todo o sempre. E o Hunter não queria ter de espancar seu amigo até quase à morte novamente.
Mas, verdade seja dita, era irritante ouvir o amigo dizendo aquelas coisas. Os Hunters viviam com um propósito, viviam para um fim. Era totalmente oposto àquilo que estava sendo pronunciado pelo inconsciente do amigo. E lembrar que, em outrora, Gipsy ja havia passado pelo mesmo problema, o fazia sentir pena e ainda pior em relação à tudo.
Seus movimentos começaram a se tornar automáticos, ao cuidar do amigo. A visão do homem desfocou por alguns instantes, nas lembranças em primeira pessoa...

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"Era um Sol radiante, pra variar, que estava no céu. Tudo estava em silêncio. Algo quente escorria do seu peito. Deixou cair de suas mãos suas antigas armas na areia e procurou toca-lo. A mão voltou vermelha. A outra fez o mesmo, para tentar parar o fluxo de sangue que jorrava. Era desnecessário.
Ouvia seu coração batendo rapidamente, pelo estado de choque em que se encontrava. Chegava então uma leve dormência, um formigamento que tomava o braço esquerdo, por estar bem próximo do coração. Ergueu a mão jovial pintada de sangue para o Sol, e como se a ilusão já começasse a fazer efeito, contemplou-a. 
Uma brisa veio e mexeu seus cabelos e sua roupa.
Admirou a cor tingida. Observou com detalhes que era jovem demais pra ter tido este fim. Pensava em chegar mais longe, ileso. A visão escureceu e tombou para o lado, perdendo a consciência."

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"Sua mão tremia, mas segurava a arma com força e apontava para para uma figura desfocada. Era alta, e estava próxima à ele; bem em sua frente. A figura mantinha suas mãos erguidas para frente, num gesto que o pedia para parar. A arma, mirando esta figura, tremia, mas nunca saia da mira. Era surpreendente. Vozes abafadas, gritos e diálogos retrucados aconteciam, alheios à perfeita audição e entendimento da cena.
A arma sai de sua mira e volta-se pra quem segura. Antes que a figura possa impedir, é apertado o gatilho."

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"O corpo balançava e os olhos piscaram uma ou duas vezes para abrir, quase definitivamente, e ver que tudo reagia no cavalgar de um Lizgart. Podia ver pela sua visão periférica o tamanho do rabo da montaria, mas não conseguia ver ao redor. Parecia estar muito bem amarrado e preso como uma bagagem, de barriga pra baixo. Havia uma total ausência de vontade própria. Sentia que precisava proteger alguém, mas quem? O rosto da criatura na lembrança estava definitivamente desfocado, deixando-o em dúvida se realmente essa existiu. Seus braços estavam sujos e balançavam com força enquanto o Lizgart o levava para não-se-sabe-onde."

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"Uma voz abafada, de uma outra pessoa, conversa como em um monólogo. Diz que precisa tentar 'essa' alternativa.
 Tudo está escuro. Um ponto luminoso, verde, acende longe, no meio do profundo breu. Não se pode ver o corpo correndo, não enxerga-se a um palmo de distância. Corre em direção do pequeno ponto, com sua coloração e luz cada vez mais forte. Uma Ressonância o faz emitir um brilho branco, e em seguida, sua coloração verde fica fluorescente, e sai ramificações  luminosas, que deslizam pelo breu, iluminando apenas por onde passa. Essas ramificações vão expandindo como raízes num processo aceleradíssimo de crescimento.
Uma destas raízes agarra o tornozelo direito, e pode-se ver o pé. Sente o corpo ser puxado e caindo no chão, é arrastado para o centro dessa luz. Chegando perto, não é um ponto e sim um grande globo. A visão esbranquece aos poucos e o telefone toca..."

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O Telefone toca.
 Gipsy abre os olhos no tranco que toma em cima do banco que estava sentado. Olha com estranheza na direção do aparelho, por ainda ter energia o suficiente para importunar. Em seguida, reflete que poderia haver muitos Peacemakers que ainda não sabia que o grupo Deep Sea estava em hiato. Levantou-se, largando o pano que havia permanecido todo este tempo na sua mão, dentro da bacia com água e atendeu-o.

— Alô, é Gipsy que está na linha?

Esse jeito de falar Gipsy conhecia muito bem.

— Ah, bom dia para você também, Higher!

— Gipsy! A tempos que não nos falamos! Por onde esteve?

— Não vai acreditar se eu te dissesse que hoje em dia eu saio muito pouco aqui do Q.G....

—Muito trabalho a ponto de nem conseguir ir realiza-los? Eu pensei que tivesse dado um tempo, segundo rumores...

— Os boatos são verdadeiros, Higher. Estou dando um tempo nesta merda toda. Você sabe, colocar a cabeça em ordem e preparar novas estratégias...

— Você não precisa me dar satisfações, Gipsy! Anda mesmo mudado,hein? — ele ri e continua — Parece que estamos sempre um ou dois passos atrás dessa raça que insiste em crescer e nos ferrar.
O que será que elas querem? Um exercito de Hunters zumbificados dispostos a servi-las?

— ...

— Gipsy, diga-me, não estaria disposto a pegar nenhum servicinho? Olha, é coisa básica. Mamão com açucar, se é que você sabe o que é um mamão...

— Já tive o prazer de experimentar essa fruta rara...

— Então, deixa eu continuar. A um tempo atrás, eu fiquei de caçar essa Lullaby que estou lhe reportando. Na ocasião eu sabia onde ela estava, mas no fim , não conseguir ir atrás dela. Pintou um monte de trabalho e ela ficou aqui, na minha lista de trampo não realizado. Pelo que sei, ela ainda não foi silenciada. Te interessa?

— Higher, vou ficar te devendo essa.

— Olha, esse trampo surgiu pra mim mas você receberá 100% em cima dele. Qual é, Gipsy! Ela parece ser de Rank baixo, a aparência é de bem nova. Essa raça não apresenta problemas quando misturam esses dois quesitos. Não acredito que você vá levar mais do que duas horas para finaliza-la.

— Higher, eu sinto muito, mas eu não estou com cabeç...

Todo aquele papo estava irritando-o. De repente, Gipsy teve uma tempestade mental. Higher não pode ouvir o baixo gemido que Gipsy deu segurando o telefone, mas o Hunter teve uma "interferência" nos pensamentos, como se tudo que ele não quisesse pensar, passasse como frames e quadros em sua mente. Agaichou-se e segurou com firmeza o móvel que sustentava o aparelho. Demorou uns longos segundos para voltar ao normal.De súbito, sua mente silenciou-se em tudo. Tudo mesmo.Os dois lados de um mesmo homem, havia desmoronado: Fé e Descrença, assim como tudo que pertence a essas duas coisas, foi varrido do seu coração, da sua alma. Não havia um pensamento maciço dentro de sua cabeça.

— Gipsy, você ainda está na linha? Hey, aconteceu algo? Responde, caramba!

O Hunter levantou lentamente. Havia parado de tremer. Ainda segurava o telefone. Primeiro, virou e olhou em direção à cama que estava deitado Glasses, e ficou uns segundos só observando. Embora não pensasse em nada, esboçou uma expressão que estivesse passado algo pela sua cabeça e levou o telefone novamente para o ouvido:

— Diga-me, Higher. Onde posso encontra-la? Me dá mais detalhes...

























sábado, 19 de julho de 2014

Short Novel - Heróis de Areia ~ Capítulo 14: Countdown!


Capítulo 14: COUNTDOWN!


O tiro da arma diminuta disparou, e seu projétil rasgou, deixando um rastro rosa-fúcsia pela sua cauda, no espaço entre Florença e Cordas.
Com violência, o Hunter levantou seu machado, como se erguesse uma bandeira de sua pátria, de baixo para cima, fazendo sua lâmina cortar o chão e buscar o céu, no momento exato que o projétil chegara a dois metros do seu coração. Cortou o tira luminosa em duas partes e suas metades caíram paralelas porém distantes do homem, explodindo em seguida. Seu machado vibrou quando acertou o tiro que almejava, de forma sedenta e decisiva, o seu peito.
Florença sorriu, agachando-se no chão e se posicionando de forma ofensiva. Quatrocordas estava com uma expressão quase de pânico e seus dentes estavam travados. Deve ser por isso que a Lullaby sorriu: aquele homem, com toda aquela força que possuía, ainda tinha de se esforçar — e muito — para não perder.
O Hunter posicionou o machado na frente do seu peitoral e desferiu um golpe de sua maça no chão, ao que a criatura escapou facilmente dos pilares naturais que subira do chão e da pequena cratera que rachava no deserto. Quatrocordas estranhou o resultado do seu golpe: sentira que algo estava travando, de forma considerável, seus movimentos e força que exigiam poder muito bem calculado. Notou rapidamente que as culpadas disso eram as alças de sua mochila.
Na fração de segundos que sucedeu, Cordas ficou ainda tenso: lembrara que carregara na mochila. Era extremamente perigoso ficar com aquilo nas costas;precisava esconder imediatamente , a todo custo.
A todo custo, precisava levar os pergaminhos ao Deep Sea, porém, jamais poderia levantar suspeitas de Florença. Sair vivo desta enrascada seria por si só um problema e tanto; se a Lullaby descobrisse que a verdade estava nas mãos de um Hunter, então o mundo todo estaria ameaçado para sempre.
Procurou rapidamente algum estrutura rochosa que pudesse esconde a mochila que detinha os importantes documentos: olhou rapidamente ao redor, e da primeira vez não houve tempo para criar esperanças; Florença já tinha avançado novamente para cima dele.
Ela jogou os braços para trás e girou a cintura para o lado esquerdo a perna direita e alternando a oposta apoiando no chão, enquanto girava. Seus chutes consistiam em sentidos giratórios, sempre avançando com a graça do balé e mortal como o Kung-fu.
Sua velocidade e força impedia que Quatrocordas saísse do bloqueio realizado graças ao Simmons e a Morning Star, e o impacto de cada chute o fazia recuar inconscientemente. Abaixou e levantou rapidamente, travando com suas armas cruzadas, os pés da Lullaby.
Exerceu sobre elas relativa pressão, de modo que prendeu a perna da criatura com o lado chapado do machado e o cabo da maça. Quando teve certeza que imobilizara boa parte da panturrilha , começou a girar em movimento de rotação.
Cordas girou e logo tirou a criatura do chão, presa às armas dele pelo pé. Ele deve ter girado umas oito vezes e só quando teve certeza que girava rápido, descruzou de súbito o machado e a maça e Cordas relembrou que, se por um lado ela era leve e ágil, ela também poderia ser arremessada com facilidade.
No horizonte que mantinha-se ampliado e imponente à sua limitada visão, a Lullaby distanciava com grande velocidade, graças ao seu arremesso. Ela entrava de cabeça no profundo cenário de nuances alaranjadas, de marrom e cor-de-terra. Quatrocordas sabia que não havia a menor possibilidade d´ela não comer areia. Mas ele torcia que tivesse uma chance remota de, com o arremesso e queda, ela ficasse um bom tempo imóvel.
Com as armas empunhadas em cada mão, olhava para os lados e procurava com pressa, na vasta área que se situava, uma elevação, um amontoado qualquer de rochas onde eu pudesse guardar o Santo Graal daquele seu mundo. Não era só pelo interminável extensão daquela realidade, seco, quente, empoeirado, onde a solidão estava contida em cada grão do infinito. O mundo dos Hunters não era tão grato a ponto de ter cópias e mais cópias daquele documento tão importante que estava em sua mochila. Além do mais,Cordas os tirou de um local nada fácil de encontrar. E, para encontrar, precisou de uma informação ainda mais rara, proveniente de uma amizade verdadeira. Vindo de um Hunter que abdicou-se da eterna luta em troca do conhecimento. De um caçador que achou, enfim, um caminho.
Poderia Cordas estar procurando, com a mesma profundidade, esse mesmo fim?

A certeza era que, ao menos, ele estava sendo testado, com o pior azar possível...

Avistou, enfim, uma estrutura rochosa a uns cinco quilômetros e meio de distancia.  Do local que enxergou tal estrutura, calculou que tivesse uns dez metros de altura. Era mais do que precisava, era totalmente possível esconder a mochila ali e lutar "tranquilamente", afastado de lá. Mas, na mente de Cordas, algo não encaixava. Ele sentia que precisava raciocinar, e bem, quanto à situação. Sentia que estava fazendo algo contra a sua vontade, que mudara radicalmente nestes últimos dias. Esse incômodo estava presente na luta contra Belthias, e agora mais ainda contra sua algoz Florença.
No momento, Quatrocordas precisava se concentrar em proteger os documentos. Depois, ele precisava planejar em como resolver as outras coisas.
Virou-se, e foi em direção à distante formação de rochas. Quando começou a correr, ouviu ao longe o impacto do corpo dela chocando-se no chão, e o estrondo que ecoou, abrindo um caminho isolado no chão empoeirado.
O Hunter encarou o barulho como uma contagem regressiva: a partir daí, ela poderia levantar enfurecida afim de brincar à sério. Então, para correr mais rápido, o Hunter arremessava suas pesadas armas para frente na direção do amontoado de rochas e, assim que as alcançava, apanhava e arremessava-as novamente. Ele manejava um machado e uma maça nem um pouco leve. Embora as manejasse com maestria, elas faziam sua velocidade cair muito.
O homem ja havia corrido metade do trajeto quando a Lullaby, ao longe, levantou. Pô-se a perseguir o Hunter com boa velocidade atrás de Quatrocordas e este ainda via-se longe da estrutura. Continuou fazendo o mesmo processo de arremessar as armas e neste meio tempo arquitetou algo a se fazer para atrasar ainda mais a criatura. Entretanto, para colocar em prática, precisava te-las em mãos e parar de correr.
Florença estava cada vez mais perto e Quatrocordas não teve escolha. Precisou parar e, volta-se para a Lullaby. Apertou com força o cabo da maça e esperou a criatura estar relativamente perto. Calculou o momento certo e assim que pôde, saltou, erguendo a Morning Star. Quando caiu, acertou com grande força a maça-estrela no chão, erguendo a colossal barreira natural.
Não esperou a certeza de ouvir o choque da criatura do outro lado da extensa e grossa parede: voltou-se para o amontoado e correu o quanto podia. Sem parar, e se aproximando das rochas empilhadas, foi tirando a mochila das costas. Neste instante, o homem foi surpreendido por uma luz rosa-intensa, quase lilás, que chegou momentaneamente assim que o brilho desceu e explodiu as rochas que serviriam de esconderijos para a mochila.
O homem alto cobriu os olhos com o braço direito, ainda segurando a maça-estrela e uma chuva de terra seca o cobriu.
Florença veio dos céus e pousou no que sobrara do amontoado de pedras. Cordas tirou o braço da altura dos olhos e viu o seu plano falhar miseravelmente.

— Que falta de educação me deixar para trás, Cordas. Onde pensava em ir?

— ...Eu estava procurando uma chapelaria, mas parece que ela acabou de ir para os ares!...

A Lullaby pareceu não entender a piada do homem. Este murmurou:

—Não vai ter jeito mesmo, né?

O Hunter encravou a lâmina do machado no chão ao seu lado e a Lullaby, que estava na ponta dos pés sobre a elevação, esboçou uma expressão de interrogação. Ele tirou a mochila e arremessou longe, à sua esquerda. A criatura nao fez menção de virar o rosto para acompanhar o pouso da mochila distante dali. Continuou a olhar o homem com um interesse singular. Os olhos dela faiscavam quando o via e Cordas aborrecia-se profundamente com isso.
Ele começou a contar os dedos, sem tirar os olhos de Florença e inconscientemente, perguntou ao léu:

— Estamos próximos do vigésimo dia do mês? Passei tanto tempo escondido que me perdi na contagem das luas...

— Não seguimos essas nomenclaturas que vocês Hunters precisam para situar-se em vida.

— Essas nomenclaturas trazem algumas informações importantes — E, baixinho, continuou — Por exemplo, em uma batalha contra vocês, quanto tempo temos para silencia-las antes que nos enfiemos num problema maior.

— O que quer dizer com isso? — Disse a Lullaby enfurecida.

— Significa que, se eu estiver correto, terei de terminar essa luta em menos de três semanas, se eu quiser ter uma chance remota de te vencer.

— Hmm, então é por isso que vocês contam os dias naquilo que nomeiam como calendário? Só para estarem a par de nós, Lullabys?

—Hoje em dia, contá-los só servem para isso. Estão inteiramente ligados a nossa chance de sobrevivência!

— Eu não creio que você tenha a menor chance comig...

— Por isso eu te disse — e, tirando o casaco que mais parecia trapos sobre seu corpo robusto — Vou ter de terminar essas luta em menos de três semanas!

Cordas agarrou o cabo de prata do machado Simmons e tirou-o do chão:

— Venha, criatura!

E a Lullaby prontamente atendeu o seu pedido...