quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Short Novel - Heróis de Areia ~ Capítulo 3: Réssonance


Capítulo 3: RÉSONANCE

A origem não é barulhenta. Não há uma festa extravagante. É tudo misterioso e natural. A única coisa  que se ouve da imagem divina, do surgimento de um ser é um som estranho, quase uma música: é a Ressonância.
Há quem diga que ja presenciaram, apenas de longe, o momento do nascimento. Os relatos são os mais variados possíveis , entretanto há muitos detalhes em comum. Por exemplo, um brilho intenso que emana de todo o jardim.

 As cores entram numa mística mistura entre si e tudo fica psicodélico. Pequenos pontos luminosos entre verde e amarelo flutuam no ar. A cor vermelha é, de todas, a que mais brilha em seu lugar. Ah, como são bonitas as rosas! Tudo parece ficar ansioso dentro do jardim. Um vento que vem não se sabe de onde rodeia o perímetro. E, quando as luzes chegam ao ápice, a brisa se extingue pelo raio da área, passando veloz, como se avisasse para toda a Garden que um novo ser nasceu.
Ali, na relva, levanta um menino de 5 anos. São meninos que surgem das luzes e do mistério de cada Garden. A grande maioria repete o mesmo movimento: recompõe-se no chão, senta de pernas cruzadas ou caminha até uma pequena árvore, levanta a cabeça, fecha os olhos e eis que inicia o primeiro contato, do jardim para a criança. Não há vozes: tudo é através de sons indistintos que se propagam por telepatia.
A criança compreende tudo nesta idade. O contato, a sintonia é tão grande, que é impossível explicar. É através dessa comunicação que o menino vive, aprende, e cresce dentro do jardim. O som indistinto só pode ser ouvido com clareza pelo garoto que nasce naquele local. Para qualquer outro, não passa de sons misturados que nada dizem. Fora a sensação estranha que se sente quando ouve algo assim.
Apesar de tudo, a tendência é perder cada vez mais a comunicação. Já na fase adulta, os sons quase não fazem sentido. Aquela ressonância, que em outrora era óbvia e clara, quando homens formados mal conseguem ouvir o que a Garden diz.

Dizem que esse som se extingue por conta da existência barulhenta de uma outra raça, e o que ela causa...

Gipsy pára onde julga ser o centro do jardim pois, de fora, qualquer um consegue ver o perímetro de uma Garden (quando ela não forma uma barreira natural de galhos, troncos e espinhos), porém uma vez dentro de uma, a dimensão se expande. Magicamente cresce; ganha um tamanho diferente. O mesmo acontece com os Relentos e seus respectivos jardins...seja qual for seu estado.O moço abre as sacolas e os mantimentos são pegos pelos cabos das plantas e das raízes. Pega-os delicadamente, num movimento quase frágil.
Ele tira o próprio chapéu e humildemente encosta no peito. Seus dedos sobem e descem, dedilhando e segurando a aba; de forma envergonhada, espia ao redor. Aos poucos, ele endireita-se  e mantém a postura de um exímio Hunter. Mas, assim como os mantimentos que somem aos poucos tragados pela terra, sua pose se esvai com os segundos que passa. Sua expressão carrega tristeza, culpa, impotência. Um rosto que seu orgulho não deixa transparecer na frente dos seus companheiros. Deu uns passos à frente. Parou e, baixinho, disse:

— Diga-me, fale comigo: o que eu posso fazer por você?

***********************************************

Existem horas do dia que são insuportavelmente quentes!
Nenhuma ação ou tomada de atitudes parece condizer com esses momentos de inferno! Mas, logo após a madrugada refrescante, as primeira horas da manhã tudo parece estar dentro do mais perfeito eixo celestial.
A luz do sol banha calmamente aquelas dunas, transformando tudo em um dourado nada agressivo. O céu continua um azul bem forte, também, nas primeiras horas da manhã. O contraste dessas duas cores traz uma beleza visual sem palavras e uma brisa quase gelada traz uma nostálgica calmaria na região de Long Orange.

Vanitas encontra-se sentado em uma pedra, lendo alguns documentos antigos. Ele gosta dessa hora do dia para estudar e abrir sua mente até onde conseguir.

Está com uma engenhoca que mais parece fones de ouvido, totalmente concentrado em seus estudos. Uma leve mudança na brisa e ele ergue os olhos, inconscientemente, avistando o horizonte. Observa uma aparição ao longe, caminhando em sua direção. O tempo árido facilita na limpa visão que se aproxima: homem alto, robusto, com um sobretudo gasto, preto, com pequenos rasgos na dobras e mangas. Chega a refletir um azul-navio na tonalidade onde o couro está bem judiado, onde repousa areia em várias partes.
A calça jeans se encontra em melhor estado, e seu sapato de bico fino e salto lhe faz uma figura ainda maior, temerosa e de muita presença. O homem se aproxima de Vanitas, e este logo salta da pedra e corre para abraçar o amigo

—Quatrocordas! A quanto tempo, companheiro!

—É sempre uma satisfação lhe ver, Vanitas!

— Estou surpreso com a visita agradável e repentina! Diga-me, como estão as coisas...

— Gipsy e eu viemos para Long Orange. Ele precisou vir para resolver assuntos particulares e eu resolvi lhe fazer uma visita enquanto ele se mantém ocupado. A propósito, ele te mandou um abraço.

— Aquele malandro! Aposto que veio atrás de Lullabys poderosas e...

— Não, Vanitas. Desta vez não envolve caças. A coisa é séria. Mas falemos disso mais tarde...

—Claro,claro. Eu precisava mesmo conversar com vocês a respeito dos meus estudos. Mas eu planejava fazer a viagem só após concluir todas minhas dúvidas entorno do tema. Vamos entrando. Estou com uma garrafa de Cactuarah doze anos. Será um prazer abri-la em meio a nossa prosa!

Vanitas vai na frente em direção a sua moradia. Todas as casas desse mundo seguem o mesmo estilo de barraco de madeira da Q.G. dos Hunters, variando apenas na arquitetura e qualidade das madeiras.
Quatrocordas olha sutilmente ao redor e não sente quaisquer presença de Lullabys. No entanto, não hesita em perguntar:

— Está sozinho em casa?

— Sim, por que?

— Passou pela minha cabeça a Lullaby estar próxima. Como vocês entraram num acordo e...

—Ah, sim! Mas Aurora saiu já faz uns dois dias. Creio que volte a qualquer momento.

— Hum, vejo que agora ela até possui um nome.

Vanitas vacila em seus passos e pára. Abaixa a cabeça. Quatrocordas se sente arrependido com o comentário e tenta se redimir:

— Desculpa a minha falta de senso e educação, amigo. Não quis te ofender, é que... Simplesmente não estou acostumado com isso e...

— Tudo bem — Adianta Vanitas — É meio desconcertante tudo isso. Mas aos poucos conversaremos sobre. Posso te pedir uma única coisa?

Ele se vira para o amigo, se posicionando de costas para a porta de seu barraco.

— Para não termos problemas caso ela volte, gostaria  que você tirasse suas armas e as encostasse num canto qualquer. Sabe, só pra não ficar um clima ameaçador. Poderia realizar meu pedido, amigo?

O homem alto hesita. Solta um suspiro e sorri, afirmando com a cabeça. Debaixo do sobretudo, nas costas tira, com uma mão uma maça-estrela e com a outra um machado médio, ambos feito da mais refinada prata, parecendo pesar mais de cinquenta quilos cada! As armas eram muito bem polidas ,reflerindo a luz e a paciência de alguém capaz de faze-la e portar seu peso.
Quando entram, Vanitas se dirige à dispensa onde pega dois copos e a garrafa doze anos, enquanto Quatrocordas deixa a Morning Star e o Simmons de pé,  num canto qualquer, como seu amigo mesmo pediu.

Os dois dão a primeira golada na bebida ao mesmo tempo em que Gipsy desperta entristecido do outro lado da região de Long Orange. Sente-se desapontado e conversa consigo mesmo:

— Nenhum resultado. Nem em sonho. O som da Ressonância não me deu sequer uma pista! Eu... eu não compreendo!

Ele se irrita, mas por ora, não perde as esperanças. Levanta-se, e começa a caminhar pelo jardim.

— Então, eu mesmo procurarei saber o que há de errado por aqui!











quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Short Novel - Heróis de Areia ~ Capítulo 2: Destinazione

Capítulo 2: DESTINAZIONE


A areia é o mundo todo. O deserto não parece ter fim. O planeta sempre foi assim, vazio. E nada indica uma pista de que irá mudar.
A máquina infernal viaja em grande velocidade, e o ar é seco, empoeirando, áspero. No entanto, aqueles dois homens estão acostumados desde seu nascimento com essa atmosfera. É a vantagem por já nascer com cinco anos de idade. Absorvem coisas demais...
Chega a ser refrescante, para eles, o vento forte, que bate em suas roupas pesadas de viajante. De pé, cada um olha fixo para uma direção. E o trem mantém seu curso imponente.
Gipsy observa ao longe algumas Gardens de todo tipo. As mais bonitas parecem ter uma luz própria que se destaca em meio àquele vasto lugar, vazio e morto. Definitivamente, não tem como não admirar a cor fluorescente do mato verde, das rosas e de outras flores!O Hunter de chapéu preto sempre fica surpreso e admirado com a natureza que faz surgir aquele tipo de vida, em pontos isolados, porém cheio de esperança!
É um grande contraste ver uma vasta terra morta com trechos onde o milagre da Existência reluz. A visão é ainda mais milagrosa quando presencia uma criança dentro dele, brincando de esconde-esconde por entre os arbustos, pequenas árvores ou até mesmo sentado, se distraindo com as borboletas, e se comunicando com aquele jardim vivo! Tudo ali tem vida própria e carrega uma serenidade absoluta. A criança que tem sorte de ter uma Garden dessa, reflete a mesma beleza e é cheia de vida.

Entretanto, a viagem oferece também aos olhos dos dois andarilhos as "falsas" Gardens: são jardins descuidados, feitos de recorte de papelão e cordas que deixam suspensa algumas borboletas e pássaros de Origami. O mato é quase seco e não irradia luz. Arbustos e árvores mais se parecem cenários de um teatro barato e os remendos são visíveis. As crianças que habitam essas Gardens são sujas, descuidadas e podem chegar a ser tão agressivas quanto o próprio jardim, que os protegem de forma errônea e sem carinho. Essas crianças são conhecidas como...

— ...Relentos!...— Murmura Gipsy.

A expressão do homem de chapéu preto se entristece observando as diferenças de Gardens ao longo do trajeto. Quatrocordas, que olhava para o outro lado da paisagem, ao ouvi-lo murmurar, pergunta:

— Se aborrece em ver certos destinos?

— Um pouco.

— Mas não é só isso, certo?

— Sim, não é só isso. Olhando as Gardens, deixa-me ainda mais ansioso em chegar no meu itinerário.

—  Impaciência é um dos seus pontos mais negativos, Gipsy!

— Por isso tenho você como amigo, e membro do DeepSea — Gipsy deixa escapar um sorriso.

— Às suas ordens, "Cap´n"! — Responde Cordas gentilmente.

Gipsy tira seu chapéu e, segurando com uma das mãos, passa os dedos da outra em seu broche. Em seguida, olha em direção ao primeiro vagão. Para a cabine da maquinista.

— Duvido que você resista! — Sorri Quatrocordas.

— É, difícil resistir...Se eu falasse pra você: "Sim, vou até a cabine fazer uma visita cordial", soaria a coisa mais comum vindo de mim. Mas, acredite: isso só me tiraria do foco. Estou me sentindo incomodado porque eu não sou de tomar a atitude contrária. É, chapa, desta vez não vai rolar.

— Estou impressionado! — Admite Cordas — Mas e quanto a uma visita realmente cordial? Nem ao menos vai destilar todo seu estilo e avisar a Lullaby que está pegando uma carona na maior cara de pau?

— Tudo será mais fácil se ela não me ver. Outra: Glasses tem algumas contas à acertar com ela, embora ele ainda esteja se recuperando...

— Por se libertar da ilusão? —  Interrompe Quatrocordas — A culpa é inteiramente dele por ter entrado na batalha naquele dia fatídico! Nós, Hunters, sabemos o perigo que corrermos toda vez que lutamos com uma Lullaby. Um só tiro no coração ou na cabeça e estamos condenados! Além do mais, ele se julgou completamente capaz em ganhar a luta, passando na sua frente sem seu consentimento. Ele procurou, de alguma forma, se auto-prejudicar. Ele foi imprudente...

— Lembro-me do dia que ele chegou cambaleando no Q.G. — Gipsy começa a resgatar das memórias — Uma noite anterior àquele dia eu havia sonhado que Glasses havia sido atingido no coração. Quando ele abriu aquela porta, só pelo cheiro, sabia quem o havia atingido. Dali pra frente, sua saúde piorou...

— E agravou assim que inconscientemente decidiu escapar da ilusão. Não são todos que conseguem acordar desse maldito sonho. — Completou Cordas.

— Com sorte, ele conseguiu. — Ressalta Gipsy.

— Mas o processo de recuperação à libertação é lento. É extremamente doloroso sentir a realidade novamente uma vez que cai nas graças  da ilusão de uma Lullaby. — Explica Quatrocordas. E, após uma pausa, conclui: — Nós sabemos bem disso, não é?

— Você não faz ideia... — Divaga Gipsy. Por fim, completa: — Ele quebrou as regras de conduta dos Hunters e, sobretudo, do nosso grupo. Mas creio que esse processo seja o castigo mais adequado. Quanto a fazer uma visita, por mais simples que seja, pioraria as coisas. Sabendo que Greenglasses já foi atingido por ela uma vez, talvez eu não resistiria.

— Então, mantenha-se firme e focado. Logo mais, chegaremos. Estava pensando...acho que não ficarei contigo esses dias. Não entenda mal, estarei lá perto para auxilia-lo, caso precise. Só pretendo aproveitar a viagem para visitar um velho amigo nosso.

— Vanitas? — Pergunta Gipsy.

— E quem mais poderia ser? — Cordas responde com uma pergunta óbvia.

— Hmm...

— O mais ousado entre nós, aquele cara!

— Sim, ele merece todos os créditos pela capacidade e ousadia... — Gipsy parece ir longe nas memórias.

— Sem contar a sorte que ele tem, que é simplesmente sobrenatural. O nível já era um absurdo, e encontrar uma Lullaby do mesmo patamar que ele e dar no que deu...

— Vanitas sempre foi um cara bem inteligente. Eu já sabia que, desde a primeira vez que foi atingido, ele sairia da ilusão vivo mais rápido do que o esperado.

— O que ninguém imaginava é que a mente dele evoluiria ainda mais, a ponto de enfrentar novamente a mesma criatura e se tornar imune aos ataques dela, e estabelecer um acordo entre eles.

— Eu prefiro chamar isso de "laços".—  Resmunga Gipsy.

— Isso é uma escolha dele. E devemos respeita-la, mesmo que isso seja nada comum em nosso mundo.

— Sou feliz com a felicidade de Vanitas.— Finaliza o homem de chapéu preto.

E entra novamente em profunda reflexão, até chegar no fim da viagem.


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Complexo mesmo foi pular do vagão com a máquina infernal em movimento. Mas os dois conseguiram, devido ao nível que cada um carrega consigo como Hunter.
O destino de Gipsy ficava perto daqui, de onde desembarcaram. Após baterem a areia impregnada na roupa de viagem, caminham ao leste. E, como planejado, a maquinista nem desconfia que foi muito útil para os dois caçadores.
O deserto é insistente. Já é noite, mas os Hunters continuam em direção a um jardim de tamanho razoável. Em sua volta há um pequeno muro feito de galhos rústicos e bem fortes, que impedem a entrada de qualquer estranho. Todavia,  Quatrocordas e principalmente Gipsy não são desconhecidos para essa Garden...
Ao se aproximarem, os galhos que obstruíam uma aproximação se afastam um dos outros, abrindo uma passagem. A luz que erradia do próprio jardim fica oscilante, pisca algumas vezes e acaba mantendo uma luz amena; menos radiante em comparação ao primeiro momento. Gipsy vira para Cordas:

— E aí, você vai entrar?

— Um outro momento, talvez.

— Entendo. Bem, então ficarei por aqui. Manda um abraço para o Vanitas. Diga à ele que, se eu arrumar algumas horas, passarei lá antes de voltar para o Q.G.. Aliás, você volta comigo?

—  Sim, sem dúvida alguma. Mandarei o abraço. E você, mande os meus para o seu jardim.

— Com certeza. Assim que terminar as coisas por aqui, entrarei em contato.

— Até logo, Gipsy. Cuide-se! E, se precisar, sabe onde encontrar-me.

— ...

Quatrocordas parte noite adentro pelo deserto. Calcula que chegará na casa do amigo pela manhã. Gipsy o observa um pouco antes de se virar totalmente para a passagem aberta. Levanta as sacolas do chão e entra no jardim. A passagem se fecha. Dá para ouvir seu murmurar antes da barreira se fechar completamente:

— O bom filho à casa torna...





quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Short Novel - Heróis de Areia ~ Capítulo 1: Iter


Capítulo 1: ITER

4 Meses atrás...

Para longas viagens, ele sempre veste o seu chapéu preto. Nunca se sabe quando entrará em ação. Caçador habilidoso, vive improvisando, mesmo saindo preparado para adversidades. Seus olhos fitam a si mesmo na frente do que sobrou de um lindo espelho. Desta vez usa uma blusa apertada no corpo e solta nos braços e nas mangas. Se encontra dentro de um barraco de madeira, cheio de pó e areia, com seus móveis devidamente organizados em seu canto e seus objetos devidamente desorganizados por todo lugar. Um dos seus pés demonstrava uma inquietação interior, batendo a bota negra cheia de fivelas naquele assoalho podre de madeira.

Quatrocordas o observava, de pé, no quarto daquela bagunça espaçosa:

— Nervoso com a viagem?

— ...

—Vai dar tudo certo. Mas daqui pra frente, terá de ser ainda mais forte!

Gipsy ainda se fitava no espelho. Queria responder de imediato ao amigo, mas as palavras fugiam de sua mente. Pegou sua insignia e colocou na copa, do lado direito do seu chapéu.

— Além do que irá fazer nesta viagem, pretende caçar também?

—Não sei — Finalmente Gipsy conseguiu dizer algo, seguido de dúvida: "Por que?"

— Está levando sua Midnight Sun — Quatrocordas aponta para o broche no chapéu do parceiro, enquanto abre uma garrafa de Sand Beer na quina da mesa. Gipsy continua olhando-se no espelho, entretanto parou de bater o pé. Enquanto isso, o amigo continua:

— Se não pretende caçar, coisa que eu acho difícil, por que leva a insignia consigo? É pra chamar brigas ou evita-las?

— Costume. Apenas isso.

— Você é um convencido! Mas tem esse direito, senão jamais seria portador desse broche. Ah, como meu amigo é demais!

— Vai se ferrar, Quatrocordas! Você sabe que eu não sou ninguém sem vocês. Sem o DeepSea...

— Você é o que você é, independente de nós ou do grupo de Hunters.

— Porém minhas caças são geralmente solitárias e sozinhas. E faço uso do Egocom o que eu bem entender. Mas, de alguma forma, vocês me dão força...

— Sim, cada um coleciona o Egocom e e administra da forma que achar mais conveniente. E é ótimo sabermos que somos útil a ti. Você precisará muito dessa força daqui pra frente.

Gipsy fica pensativo. Por fim, desabafa:

— Com tanta coisa que se pode criar a partir dessa energia do Egocom, o que passamos dia após dia pra consegui-la, e ainda não parece diretamente suficiente pra salvar alguém...

Instala-se um silêncio. Resquícios do ranger da madeira do assoalho inicia um novo assunto entre os dois Hunters. O ato repentino é iniciado por Gipsy:

—  Onde diabos se meteu Greenglasses? Só queria avisa-lo que estaremos fora esses dias e se ele poderia ficar de olho aqui no Q.G. ...

— Nada sei sobre o diabo, mas se quiser saber do Glasses, ele está vindo ai — Disse Quatrocordas, espiando despretensiosamente a janela, segurando com sua gigantesca mão esquerda a garrafa que já estava no fim.
Greenglasses foi entrando no Q.G. e prontamente os cumprimentou de forma educada:

— Boa noite, senhores, como vocês est...? Ué, o que é isso? Malas? Pra onde vamos?

— Não sei pra onde você vai, mas eu vou ficar fora esses dias. Quatrocordas irá me acompanhar. Teria como você ficar sob vigília até eu voltar?

— Ahm, sim, claro... Sem problemas! — Responde Glasses.— Mas quantos mantimentos! Vai ficar fora um mês?

— Não é pra mim — Diz Gipsy, enquanto amarra as trouxas de suprimentos.

— E pretendem irem andando com isso? Vocês não irão muito longe se carregarem isso sozinhos e...

—  Iremos de Train Oasis...

De novo, um novo silêncio. Desta vez, constrangedor. Quatrocordas e Gipsy entreolham-se esperando qualquer reação de GreenGlasses. Poderia ter sido pior: ele levantou as duas sobrancelhas, afirmou com a cabeça, mas logo em seguida fechou a cara, cruzou os braços e ficou com os olhos perdidos. Disse apenas: "Divirtam-se!". O homem de chapéu preto voltou-se para as sacolas e malas e fez uma contagem regressiva de três à zero, mentalmente. Ao término dessa, Glasses começa com as perguntas:

— Muito bem, muito bem...E que horas vão?

— Daqui a pouco.

— Vocês "negociaram" a passagem?

— Não, iremos de forma clandestina assim que o trem passar.

— Ela passará aqui?

— Não, sabemos por onde seu trem irá cruzar. É perto daqui...

— E você pretende, sei lá, ir até a cabine da maquinista pra...

— Glasses, me ajuda aqui com isso? — Adianta Quatrocordas, quebrando o diálogo entre ele e Gipsy, e jogando uma mala pesada nos braços de Glasses.

— Não tenho intenções de enfrenta-la. — Responde finalmente o moço de chapéu preto.

— Ah, vá, Gipsy! Até parece que, se ela quiser duelar contigo, você irá recusar? Te conheço: vai atacar sem dó nem piedade!

— Farei com que a Lullaby nem perceba a minha presença. — Gipsy diz após um grande suspiro, erguendo as sacolas no alto do peito, indo em direção à porta. — Me ajuda aqui, Glasses!

Os três partem e caminham uns vinte minutos pela área do extenso deserto. Já é noite e as estrelas são os destaques do céu azul turquesa que faz um lindo degradê de seus tons mais claros no horizonte. Gipsy pára e diz:

— É aqui. Se meus cálculos não estiverem errados, hoje a máquina infernal Train Oasis passará por esse ponto, dando às costas neste lugar, onde laçaremos um dos vagões e conseguiremos nossa carona gratuita. Para isso, precisamos nos esconder atrás daquele amontoado de rochas e laça-lo assim que virar para o Sul...

O homem de chapéu preto ouve o atrito de passos se distanciando. Vira para trás e percebe que Greenglasses já está indo embora, e nem fez questão de prestar atenção no plano mirabolante.

— Não vai esperar a gente partir? — Pergunta Quatrocordas.

— Não mesmo! Não tenho estômago ainda pra encarar aqueles faróis, tampouco a maquinista.

Gipsy dá de ombros:

— Você é quem sabe.

Seguindo o caminho de volta, e sem se virar para os dois homens com as bagagens, Glasses diz:

— Mande meu "olá" para ela, caso você resolva caça-la!

Gipsy e Quatrocordas não souberam dizer se havia sido um comentário irônico ou não...

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O trem, como o moço do chapéu mesmo disse, passou por ali perto, levantando uma grande poeira no deserto. Vira-se de costas e segue para o horizonte ainda iluminado pelo Sol insistente. Os dois trataram de lançar seus equipamentos no instante que a máquina virou e, por pouco, suas cordas quase não alcançam o vagão.
Deslizar pelo deserto agarrado ao trem por cordas e ganchos trouxe à Gipsy uma sensação momentânea de felicidade e adrenalina. Porém, foi só subir no topo do vagão que sua mente entrou novamente em estado de profunda reflexão.
Quatrocordas sorria sutilmente, compreensivo por parecer saber o que se passava na mente do seu colega...





quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Short Novel - Heróis de Areia ~ Prólogo

Aew! Para os que me acompanham sempre, de vez em quando ou simplesmente nunca, nas próximas postagens publicarei uma mini-história, ou uma short novel, de autoria minha. Como sou péssimo em fazer sinopses, aconselho-vos a dar uma lida despretensiosa na história, só por curiosidade. Se a leitura prender-vos, beleza: continuem acompanhando. Caso não, beleza também. Meus textos ou histórias nunca foram muito diretos mesmo. Reconheço essa falha minha...rs ^^"
Sim, existem personagens diretos e sim, seguirá quase de forma cronológica e não, nem tudo estará claro. Algumas coisas deixarei simplesmente "no ar". Dependerá da interpretação de cada leitor e espero que vocês fiquem com a melhor possível, para se sentirem  à vontade e acompanhar até o fim, onde nem eu mesmo sei no que vai dar. Hoje só os deixarei com o Prólogo. Na próxima semana, o primeiro capítulo...
Boa leitura! o/


Short Novel: Heróis de Areia

Prólogo - SURROUNDED



O vento soprava do lado oeste daquela região inóspita. O clima dizia que em breve, uma tempestade de areia passaria pelo local, transformando a paisagem num inferno de grãos que cega e derruba qualquer aventureiro inexperiente. É o "Labirinto-Camaleão", conhecido pelos poucos sobreviventes nativos daquele local.
O pulmão precisa ser forte o suficiente para manter o cigarro acesso neste vento. Ele relaxa. É reconfortante. E, a cada tragada, horas a menos de vida são acumuladas na infame lista da Dona Morte.
Não faz diferença: quem fuma vive uma vida sem a certeza da volta; sabe apenas da ida.

Suas luvas de lã e trapo, assim como sua roupa de couro que mistura jaquetas, acessórios indistintos de pano, cintos com rebites lhe servindo como apoio para suas armas, lhe fazem uma forma sólida, caminhando seguro de si, quase uma sombra, não fosse pela camisa branca que usa por debaixo de tudo isso. Sua gola está aberta e levantada; o "V" que forma em seu peitoral, devido aos botões abertos, deixa seu físico exposto...
Olhos semi-cerrados, visualizando sempre em frente e não se intimidando pela visão que cisma em engana-lo pela areia que toma o ar. Sua jornada leva tempo necessário para ele se convencer do que está fazendo, se é que precisa disso. Sequer dá pra imaginar o que ele pensa enquanto se dirige ao seu destino final.

Uma outra figura, bem à frente o observa de uma elevação de pedras, mirando diretamente no peito do homem. Vendo-o obstinado e não fazendo quaisquer menção de parar, ela mantém a mira de sua arma nele. Assemelha-se à um rifle, com detalhes que parecem não pertencer a esse mundo. Típico da raça que as usa.
Sua dúvida e curiosidade faz uma de suas sobrancelhas levantar e, sem entender bem  a sua reação, desiste da mira. Levanta a arma; sai de sua posição estratégica para abater o homem e caminha para trás da elevação de pedras.
Desce e se posiciona em frente ao seu forte de rochas, afim de barrar a passagem do moço. Este pára, lentamente, a 20 metros da figura que carrega o rifle na mão. O seu cigarro ainda garante algumas tragadas.

Frente à frente, eles se encaram. E o vento parece cercá-los, preparando-os para o combate que vai além do que os olhos podem presenciar.


                                                           

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

A Distância entre os Distantes

A distância era pequena: antes mesmo que pudesse contar em uma mão sua idade, ele já se encontrava dentro do recanto do conhecimento. Sua representação era através de duas árvores, bem estilizadas e delicadamente desenhadas.
Apesar do desenho remeter a um lugar seguro, e a sua distância não ser nem duas quadras de sua casa, aquele lugar oferecia perigo: mordidas e violência eram formas de expressão e comunicação, do qual ele ainda era muito pequeno para compreender...
Antes de ir ou até mesmo quando voltava, sonhos eram tecidos de forma difusa. Uma voz feminina não era madura o suficiente para reclamar, por isso era tão doce ouvi-la.

Dois seres ingênuos construindo seu mundo espectral: um estava descobrindo o mundo, o outro sequer havia acordado...

Aquele que ouvia tinha a missão de compreender gradualmente vários tipos de comunicação: suas diferenças, e o direito de que todos não querem respeitar senão seus próprios interesses. O outro ser, da voz feminina, tinha a missão de cumprir realizando os sonhos.

Independente da idade de cada um, cada qual possuía uma tarefa muito difícil de ser cumprida. E como cada escolha era uma renuncia, à medida que o mais novo apenas absorvia a mistura inseparável do bem e do mal, os caminhos tomado pela mais velha influenciava diretamente o mundo dos dois.

Ah, mas como era gostoso sonhar! Era muito melhor do que festas de aniversário, porque sonhar não fazia barulho, não haviam gritos insuportáveis como a música "parabéns pra você" ou gritos de "gol" na copa. O coração crescia à medida que se alimentava dos sonhos, e era lá dentro que ele fazia sua própria festa. Ambos os corações acreditavam.


Acreditavam num tempo que chegaria...

Acreditavam num tempo que nunca chegou...


O tempo continuou seu fluxo adiante. Mas nunca veio.


Entretanto os corações cresceram. Um se encontra cheio de dúvidas, escuro, oco. O outro se encontra ligeiramente fraco e frágil.

O tempo trouxe à pessoa mais velha um labirinto ardiloso sem muitas esperanças. Caso saia, quais serão suas (novas) perspectivas? Talvez saia mais cega do que quando entrou. Mas ainda há a pequena crença de que, o que não nos mata, nos deixa mais forte.

Para o outro, trouxe ainda mais dúvidas e a plena crença de que os sonhos são apenas frustrações da realidade. Não consegue mais resolver simples contas matemáticas. Por enquanto consegue ficar indignado com certas palavras ou nomes que servem para negligenciar certos momentos de falta de audição de outrem ou ausência de vontade.

Mas também não pode proferir sua voz: nega qualquer ajuda exterior. Os sonhos construídos  ficaram tão enraizados no ser que ele ainda acha que conseguirá um último suspiro. O último tiro. O movimento final de um jogo.



Tenho a leve impressão que, enquanto esses dois morrem lentamente tentando, de algum outro lugar, à distância, estão sendo observados e delicadamente debochados por suas tentativas...

Mas isso é, obviamente, um pensamento distante...

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Shining´s Death, Black End

A quase dois meses atrás, houve a feira anual de ciências na escolinha onde trabalho. Enquanto eu sorria desde o começo do ano pelo tema (porque eu simplesmente amo os mistérios do universo), reconhecíamos que era um tema bastante abstrato para os alunos que iam até o 5° ano. O sorteio foi rígido e cada sala ficou com uma meta bem difícil de cumprir.

Ajudei quem eu podia, nos mais variados assuntos do qual eu já sabia um pouco e naqueles que não manjava necas de pitibiriba. Sem dúvida, o tema mais complexo se encontrava na sala do 2° ano: eles estavam destinados a desvendar e explicar sobre os Buracos Negros do Universo!

E fomos às pesquisas! Não foi fácil colocar na cabecinha deles algo tão abstrato até para o adulto mais especializado no assunto, porque a natureza dos buracos negros simplesmente não são compatíveis com as nossas. Em outras palavras, seguimos regras e eles quebram TODAS!

E o desafio ainda não estava completo: a ideia da professora do 2° ano estava em montar uma poesia sobre o assunto estudado; em cima de toda a pesquisa feita e todos os relatos especializados.
Desafio pois, montar um poema sem ser muito complexo, voltado para as crianças, era algo que também quebrava regras. Até agora não acho que o fiz com maestria, embora fosse fácil em si criar um poema.
Mas tenho certeza que eles entenderam os termos Quasar, Supernova, Hipernova, Gravidade e até hoje eles vivem brincando em explicar o significado deles.

No dia, a sala escureceu-se e deu origem as estrelas, que iluminavam os quatro quantos da sala. E a banda Ozric Tentacles estava ali como "A" trilha sonora que dava para tudo um ambiente profundo e misterioso:

http://www.youtube.com/watch?v=UVZxpoq166Q

Com ajuda de lanternas, iluminavam o rosto em dizerem uníssonos, cada qual em seu canto, fazendo uma das melhores apresentações de sala de aula.

Vamos ao poema (Recomendado ouvir a trilha sonora XD) :


As estrelas não são eternas
Um dia elas também se vão
Prestem bastante atenção
Pois todo conhecimento não é em vão

Entender não é fácil
o processo aqui é inverso
O tema é Buracos negros
O maior mistério do Universo

A morte de uma estrela
é a visão mais bela que existe
O segredo se esconde
no momento em que ela não resiste

Se a estrela é dez vezes maior que o Sol
a Super-nova é o show da explosão
Mas se a estrela é cem vezes maior
nasce dela o ponto da destruição

Destinada, desde o seu nascimento

há uma luta no seu interior,
entre combustão e gravidade,
disputando quem é superior

No fim, a gravidade vence
devorando de dentro para fora
Uma Hiper-nova surge...

...E é chegada a hora...

Liberando Raios-gama
É um show de luzes a se contemplar
Entretanto, só de muito longe
pois isso pode nos fritar!

Depois disso, o fim é só o começo
de um pequeno ponto escuro,
com uma gravidade infinita
capaz de engolir tudo!

Estrelas, galáxias, planetas
sistema solar e outras vidas 
Para o Buraco Negro
tudo isso é comida!

Caso ele canse de comer
astronomicamente irá se engasgar
Liberando uma rajada universal de vento
chamado Quasar

Finalmente ele se aquietará

e tudo vai parar de sugar
Continuará a existir
e uma nova galáxia irá surgir

Sim! Talvez a origem do Universo
esteja por de trás desses monstros, 
que vagam por aí
se alimentando também de outros

Chegar perto ainda não podemos
para desvendar seus segredos
Viagens no tempo são desvaneio

passando seu Horizonte de Eventos

Para onde ele leva?
E o que existe do outro lado?
É uma viagem sem volta

pelo vasto espaço...

O pó de estrelas
É do que somos feito
Dessa coisa que carrega
o fardo de ser o Fim e o Começo.



sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Diário de Bordo de um Sobrevivente: Reencontro Hostil

" Quando eu era pequeno, os mortos me davam medo. Pertenciam a um mundo totalmente diferente e assustador, suas aparições eram inusitadas e eram etéreos: tinham a habilidade de atravessar paredes.
Ao longo do tempo, minha definição provou estar errada. O nome que se dá para isso é 'espíritos' ou 'almas'.
    Hoje, na atual realidade, os mortos tem uma nova conotação: possuem um exército mutilador, desorganizado e totalmente material. E, é claro, me dão hoje o dobro de medo...e desespero... "

                                                                                                                          -Autor desconhecido-


"Naquela ocasião, procurar pistas de meus amigos tinha sido em vão. Os poucos rostos conhecidos já estavam desfigurados e faziam parte de uma outra realidade. E eu não podia fazer mais nada por eles.
Matá-los novamente era muito arriscado. E me faltava capacidade para tal. Eu tinha uma só espada e um único cérebro entrando em parafusos, tentando entender e se adaptar a nova verdade, ao mesmo tempo que também fazia questão de trabalhar dobrado pra não virar comida.

Retornei enquanto pude, peguei a merda dos meus principais pertences para sobreviver e parti, afim de averiguar o quanto esse novo paradigma existia, ou até onde: deixei muita coisa para trás...

Após um ano, por falta de comida e segurança, resolvi voltar e fazer da minha casa e das demais ao meu redor meu pequeno reino. Estaria seguro e aquele bairro não era mais segredo pra mim. Conhecia as rotas de fuga como o corpo de uma mulher gostosa  que me deleitei noites e noites.
Voltei para meu antigo lar aqui em SP trajando roupas e acessórios que fui conseguindo ao longo desse ano. Isso custou algumas invasões à casas vazias e não tão vazias, suor e alguma quantidade de sangue. Algumas vidas pode-se colocar também nesta lista. Nunca as frases 'A casa do Senhor possui várias moradas' e ' Sobrevivência do mais apto' faziam seu sentido completo, e se completavam.
'A vida é outra agora, foda-se!', eu pensava. E é assim mesmo hoje, chapa! Se não bastasse a luta infernal contra a horda esfomeada, os inimigos também são os que ainda pensam. Mas essa é uma linha tênue e sutil sobre sanidade...

Mas acredite: a realidade nunca me bateu tão forte quanto agora.

Chegando em casa, tudo havia sido destruído: haviam marcas e pistas de que os vivos passaram por ali procurando refúgio, da mesma forma que também foram surpreendidos pelos mortos. Entretanto, apesar dos musgos e vegetação persistir nesse cenário de escombros e casas abandonadas, haviam dois detalhes que, se eu tivesse percebido a tempo, TALVEZ não me encontrasse agora nessa situação:

- O local estava razoavelmente limpo e quieto;
- Existia comida e um kit médico bem a mostra;

Cara, não venha dizer que consegue raciocinar numa situação dessa. Eu estava ferrado até o pescoço por praticar Parkour em telhados que  viviam quebrando comigo em cima! Nem lembrava que essa tática era usada por alguns grupos em Cangaíba, Vila Prudente e Ipiranga.
No ímpeto da necessidade, coloquei minha mão no kit e ,sem perceber, acionei uma espécie de dispositivo precário, com alguns tiros automáticos amontoados com restos de artilharia e lâminas.
Nosso cérebro, após um ano tentando sobreviver a tudo, fica meio paranoico e aprendemos  a nos incomodar com a mais leve brisa do vento batendo nos pelos do braço. O reflexo me fez escapar da morte, mas não dos ferimentos do corpo.
Para o canto que pulei e me arrastei ensopado de sangue com uma dor do caralho, xingava o filho da puta que tinha colocado aquela merda ali e desejava encontrar o mais cedo possível pra arrancar a cabeça dele e empalar por mera vingança e ódio infantil. Mas desejava trombar o merdinha depois de me recuperar no novo vestido de peneira que eu trajava naquele momento...Senti um cano gelado na minha têmpora direita e um 'click'. O meu reflexo, ou o que sobrou dele, ainda me fez levantar a espada e apontar na garganta do ser que se encontrava ali, em ótima forma, retribuindo a arma de fogo negra.

Marcos, um outro amigo meu que morava ali naquele mesmo quintal em outrora e que eu pensava estar morto, esbanjava de vida bem mais do que eu, mostrando que ali era o seu território.
Seus olhos estavam diferentes. A porra toda do mundo já tinha enlouquecido mesmo e estava claro que ele iria me matar, sem remorso algum. Ao meio de dores e palavras que mais pareciam gritos, tentei argumentar que éramos amigos.

Ele retrucou, dizendo que a 'amizade' existia para afogar o capitalismo existente da antiga realidade. E que hoje os suprimentos e a sobrevivência era o mais importante.
Agora recordo-me de como ele dizia, antes de tudo isso começar, como ele se deliciaria num apocalipse zumbi, caso acontecesse um dia. E não é que o cara levava jeito pra esse tipo de coisa?...
...Mas também não posso culpar o desgraçado. Perder os entes queridos para essas coisas fode com a mente de qualquer um. Transforma nosso cérebro em paçoca, tah ligado?

A armadilha foi ele quem montou e colocou, focado nos sobreviventes em busca de abrigo e comida. Ele se apoderava do que os viajantes desatentos carregavam consigo. De mim ele não levaria muita coisa: duas espadas, chapéu e meu lenço vermelho.Eu estava faminto fazia três dias; nem minhas fezes o maldito teria. Mas também não teria o prazer de cagar no território dele. Mas... Porra, mano...o lenço não...

A minha sorte (ou não) foi que, com o barulho da armadilha acionada, os mortos vieram não-sei-de-onde, guiado pelo som, barrando a única via entre as casas que levaria ao arsenal de armas que Marcos guardava em uma das casas. Eles barravam também a passagem  para a rua.
'Se eu tiver de morrer, você será devorado também e esse merdinha de arma não vai dar conta', pensei. Mas achei melhor usar as forças que me restavam para bolar uma rota de fuga improvisada.

Relutante em seguir certos toques meus, Marcos ajudou em nossa fuga. Em uma dor dos diabos, os filmes hollywoodianos de piratas me vieram na mente ensinando um truque ou dois, de modo que naquela hora consegui achar uma saída escapando, ele e eu, ilesos dos zumbis, mas não sem antes pegar o kit médico da armadilha, alegando que eu estava fodido por culpa da maldita trap dele. Nada mais justo eu usar.

Por ora, Marcos se encontra desabrigado feito eu.
Por ora, iremos ao centro da cidade, em busca de alimentos fáceis e dias de sobrevivência.
No Vale do Diabo, somos aliados temporariamente.

A amizade já se encontra morta nessa realidade...


                                                                                                         Zombie Walk 2013"